Livre-arbítrio: uma introdução ao conceito histórico do arminianismo

Introdução - Salvação é um tema que sempre gerou e continua a gerar curiosidades e anseios no cerne da alma humana. Certo jovem abastado procurou Jesus e perguntou: “Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?” (Mc 10.17). Em outra ocasião, um dos doutores da Lei, querendo experimentar a Cristo, questionou: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Lc 10.25). Alguns sistemas de crença dizem que a salvação se dá por meio de boas obras, atribuindo mérito ao ser humano e invalidando o sacrifício de Cristo por meio de uma auto salvação. Outros sistemas pregam uma esperança baseada em constantes reencarnações, nas quais o esforço humano as proporcionará melhores condições em suas vidas subsequentes. 

Há, ainda, o sistema universalista, o qual prefere ludibriar a consciência do homem sob o falso entendimento de que no final das contas todos serão salvos, independentemente da Obra Vicária de Cristo e sua eficácia para com aqueles que O receberam (Jo 1.12). Todas essas posições são contrárias à perspectiva da Palavra de Deus (cf Ef 2.8,9; Hb 9.27; Jo 3.16).
Neste artigo poderemos observar os dois principais sistemas que discorrem sobre a salvação do homem dentro do protestantismo. O primeiro se baseia na predestinação divina, cuja atuação é unicamente monergista, e o último no sinergismo entre Deus e homem, cuja atuação se dá através da graça preveniente e do livre-arbítrio humano.
Antecedentes históricos

Esses dois conceitos paradoxais remontam aos dias de Agostinho, o qual defendia que o homem é predestinado por Deus e, portanto, não possui capacidade de escolher Cristo e Sua obra salvadora. Para que o homem seja salvo, é necessário que Deus atue com sua graça irresistível e o regenere. As doutrinas soteriológicas de Agostinho foram formadas antes e durante o embate da controvérsia pelagiana. Pelágio foi um austero monge e popular professor em Roma. Sua austeridade era puramente moralista, ao ponto de não conseguir conceber a ideia de que o homem não podia deixar de pecar.
Pelágio estava mais interessado na conduta cristã e queria melhorar as condições morais de sua comunidade. Sua ênfase particular recaía na pureza pessoal e na abstinência da corrupção e da frivolidade do mundo, resvalando no ascetismo.
Ele negava a ênfase de Tertuliano ao pecado original, sob a argumentação de que o pecado é meramente voluntário e individual, não podendo ser transmitido ou herdado. Para ele, crer no pecado original era minar a responsabilidade pessoal do homem. Ele não concebia a ideia de que o pecado de Adão tivesse afetado as almas e nem os corpos de seus descendentes. Assim como Adão, todo homem, segundo o pensamento pelagiano, é criador de seu próprio caráter e determinador de seu próprio destino.
No entendimento pelagiano, o homem não possui uma tendência intrínseca para o mal e tampouco herda essa propensão de Adão, podendo caso queira, observar os mandamentos divinos sem pecar. Ele achava injusto da parte de Deus que a humanidade herdasse a culpa de outrem e desta forma negava a doutrina do pecado original.
Desta forma, Pelágio passou a ensinar uma doutrina exageradamente antropocêntrica e focada no livre-arbítrio, ensinando que, ao criar o homem, Deus não o sujeitou como fizera com as outras criaturas, mas “deu-lhe o privilégio singular de ser capaz de cumprir a vontade divina por sua própria escolha”.
Como Pelágio baseava suas teorias em uma abordagem moralista, entendia que a desobediência do homem vinha do exemplo e dos costumes observados ao redor, podendo pela própria força, alcançar a perfeição mediante grande esforço de sua própria vontade.
Em contrapartida, Agostinho sustentava que Adão fora criado em um estado original de retidão e perfeição e estaria, em seu estado original, isento de males físicos, dotado de alta intelectualidade, bem como num estado de justificação, iluminação e bem aventurança inigualáveis, além de ter a inclinação de sua vontade para a virtude.
A gravidade do pecado de Adão foi tal, que a consequência foi uma tragédia para a humanidade, a qual se tornou uma massa de pecado (massa damnata), isto é, um antro pecaminoso e propagador de pecadores. As bases agostinianas para a doutrina do pecado original se encontravam em passagens como Sl 51; Ef 2.3; Rm 5.12 e Jo 3.3-5.
Uma vez que o homem havia cedido ao pecado, a natureza humana foi afetada obscuramente pelas consequências do mesmo, tornando-se desordenada e propensa para o mal. Sendo assim, sem “a ajuda de Deus é impossível, pelo livre-arbítrio, vencer as tentações desta vida”. Essa ajuda divina para escolher o certo, ou retornar para Deus, era Sua graça, a qual Agostinho define como “um poder interno e secreto, maravilhoso e inefável” operado por Deus nos corações dos homens.
Para Agostinho, a graça divina antevê e provoca cada impulso na vontade do homem. Essa graça é expressão da soberania de Deus, não podendo ser resistida. Para explicar o antagonismo da irresistibilidade frente ao livre-arbítrio, o Bispo de Hipona diz que a liberdade do homem é baseada nas motivações. Sendo as decisões do homem, portanto, um fruto do meio, o homem não regenerado que vive em uma atmosfera de concupiscência escolherá o mal. A graça divina, porém, cura o homem e restaura seu livre-arbítrio, substituindo seu sistema de escolhas.
Outros referenciais históricos

A questão do livre arbítrio é um tema que sempre teve seu espaço na teologia, fosse na antiguidade clássica, na era patrológica ou na contemporaneidade. Normalmente no embate predestinação x livre-arbítrio, o nome mais lembrado é o do eminente teólogo supracitado Agostinho, cuja notoriedade contra a controvérsia de Pelágio é consabida, entretanto, outros nomes também são dignos de consideração.
Justino Mártir (100-165) dizia que, embora não tenhamos tido escolha alguma no nascimento, em virtude dos poderes racionais que Deus nos deu, podemos escolher viver ou não de modo aceitável a Ele, não havendo desculpas quando agimos erroneamente. Ele dizia, ainda, baseado na pré-ciência divina que, Deus não predetermina as ações dos homens, mas prevê como irão agir por sua própria vontade, podendo inclusive, anunciar antecipadamente esses atos.[viii] Concordavam com a livre escolha do homem os apologistas Atenágoras (133-190), Teófilo (?-186) e Taciano (120-180).
Vale a pena comentar a opinião de Tertuliano (160-220). Ele cria que o homem é como um ramo cortado do tronco original de Adão e plantado como uma árvore independente. Sendo assim, o homem herdou através da transgressão de Adão a tendência ao pecado. Como resultado do pecado de Adão, carregamos mácula e impureza. Apesar disso, o homem detém livre-arbítrio e é responsável por seus próprios atos.[ix]
Muitas controvérsias em torno do livre-arbítrio se deram por equívocos exegéticos. Clemente de Alexandria (150-215), negava o pecado original baseado, por exemplo, em Jó 1.21. Segundo ele, a declaração de que Jó havia saído nu do ventre de sua mãe, deixava implícito que as crianças entram no mundo sem pecado. Essa má interpretação e ênfase exagerada no livre-arbítrio, levava-o a professar que “Deus deseja que sejamos salvos por nossos próprios esforços”.[x]

Outros esforços na defesa do livre-arbítrio também se deram nas disputas contra os maniqueístas. Estes questionavam a benevolência de Deus e lhe outorgavam a autoria do pecado. Se o homem herda de Adão a culpa e o pecado, não possuímos poder de escolha. Logo, raciocinavam eles, Deus é o autor do mal. Contra esses argumentos, levantaram-se homens como Cirilo de Jeusalém (313-386), Gregório de Nissa (330-395), Gregório de Nazianzo (329-389) e João Crisóstomo (347-407). Infelizmente, eles acabaram negando o pecado original afirmando que crianças recém-nascidas estão isentas de pecado, embora cressem que a raça humana foi afetada pelo pecado de Adão.[xi]
O entendimento sobre o livre-arbítrio foi sendo amadurecido. No século V, por exemplo, temos na expressão de Teodorete (393-466), o pensamento de que, embora o homem necessite da graça divina e sem esta é impossível dar um só passo na “senda que conduz à virtude, a vontade humana tem de colaborar com tal graça”, pois existe a necessidade de um sinergismo “tanto de nossos esforços quanto da assistência divina. A graça do Espírito não é assegurada àqueles que não fazem esforço algum” ao mesmo tempo que “sem essa graça é impossível que nossos esforços recebam a recompensa da virtude”.[xii]
À semelhança de Teodorete, Teodoro de Mopsuéstia (350-428) dizia que o livre-arbítrio pertence a seres racionais. Na opinião dele, todos os homens possuem conhecimento do bem o tempo todo, bem como capacidade de escolher entre o certo e o errado. Ele não negava os efeitos da queda na humanidade e dizia que os homens possuem propensão definida para o pecado e que se for para o homem passar deste[xiii] estado caído para a vida bendita reservada por Deus é necessária a operação graciosa da dádiva divina no homem.
Saltando 8 séculos, chegamos a outra pessoa que deu sua enorme contribuição à doutrina do livre-arbítrio: Tomás de Aquino (1225-1274). Ele dizia que “em cada ser intelectual há vontade, assim como em cada intelecto”.[xiv] Seu conceito sobre vontade é de que esta é um poder para atrair ou afastar aquilo que é apreendido pelo intelecto.[xv] Apesar de Deus mover a vontade, “já que ele move todo tipo de coisa de acordo com a natureza da coisa movida... ele também move a vontade de acordo com sua condição, como indeterminadamente disposta a várias coisas, não de forma necessária”.[xvi]
Feser explica a posição Aquiniana fazendo a seguinte analogia: quando escolhemos tomar café ao invés de chá, poderíamos fazer diferente. A cafeteira, por sua vez não pode mudar sua função sozinha. Isto é assim porque nossa vontade foi a causa de tomarmos café, enquanto que algo fora da cafeteira (programações de instruções, corrente elétrica fluindo para ela da tomada na parede, as leis da física, etc) foi a causa de seu comportamento. Deus causa os dois eventos de uma maneira consistente com tudo isto, ou seja, enquanto que ao causar sua livre escolha ele causa algo que opera independentemente do que acontece no mundo à sua volta. Ele conclui dizendo que, embora seja Deus a causa última da vontade e da ordem causal natural, Ele não mina a liberdade do homem, mas a faz possível no sentido que assim como nas causas naturais, se escolhas livres não fossem causadas por Deus, elas nem poderiam existir.[xvii]
A influência calvinista

Na Idade Média as pessoas procuravam, muitas das vezes, uma solução eterna baseada em um documento assinado pelo pontífice da igreja romana. Essas indulgências prometiam efetuar um pagamento mais completo da dívida que o pecador deve a Deus e amenizar as exigências futuras em um suposto purgatório.[xviii]
Nessas condições decadentes da teologia medieval romana, emergiu a Reforma Protestante e doutrinas como Sola Fide, Sola Scriptura, Solus Christus, Sola Gratia e Soli Deo Gloria[xix] foram verberadas com veemência.
A proposta do presente artigo é entendermos melhor acerca do que conhecemos como arminianismo. Entretanto, não há possibilidade de falar de Armínio sem comentarmos de Calvino.
Quando Lutero afixou as 95 teses na porta da igreja no castelo de Wittenberg, Calvino tinha oito anos de idade. Natural de Picardia, na França, Calvino nasceu em 1509 e morreu em 1564 e foi sem sombra de dúvidas, um proeminente teólogo protestante e líder eclesiástico, dono de uma mente brilhante.
Ele recebeu grau de mestre em teologia no início do ano de 1528, mas a pedido de seu pai deu inicio ao estudo de Direito, em Orleans. Com a morte de seu pai em 1531, Calvino pôde retornar às suas preferências teológicas e dedicou-se ao estudo das línguas grego, hebraico e latim.
Vendo dificuldade para que houvesse reforma em Paris, Calvino mudou-se para Basel, na Suíça. Lá, ele escreveu e publicou suas institutas no ano de 1536. Em seus comentários sobre os salmos, ele contou ter passado pelo o que ele mesmo denominou de “súbita conversão”, dizendo que outrora estava “teimosamente preso às superstições do papado” e que não era possível desvencilhar-se desse profundo lamaçal, mas que Deus havia subjugado seu coração da obstinação de sua idade para a docilidade e conhecimento da verdadeira piedade, mediante Sua providência secreta.[xx]
Outros reformadores desenvolveram pensamentos que, unidos com os de Calvino, formaram uma tradição que é chamada de Reformada. Dentre esses teólogos reformadores, podemos citar Martin Bucer, Heinrich Bullinger e Ulrico Zwinglio. Essa escola de pensamento é também chamada de Calvinismo.

Jacó Armínio

Armínio foi um teólogo holandês, nascido em Oudewater (1560 – 1609). Ele estudou entre os anos de 1576 e 1582 na Universidade de Leiden, na Holanda, onde posteriormente foi professor desde 1603 até sua morte.
Johann Kolmann, um de seus professores de teologia nesse período, acreditava e ensinava que o alto calvinismo tornava Deus um tirano e carrasco, o que certamente influenciou as ideias de Armínio. Em 1582, começou a estudar em Genebra e teve como um de seus mestres o reformador Teodoro Beza, sucessor de Calvino. Em 1588 foi ordenado e pastoreou uma igreja em Amsterdã.[xxi]
Segundo o Novo Dicionário Internacional da Igreja Cristã, quando Calvino morreu, “toda a responsabilidade (...) recaiu sobre Beza. Beza era chefe da Academia [de Genebra] e professor, presidente do Conselho dos Pastores, uma influência poderosa sobre os magistrados de Genebra e porta-voz e defensor da posição protestante reformada”.[xxii]
O que sabemos é que Arminio discordou das doutrinas de Calvino, baseado em duas argumentações: 1) a predestinação tal qual no entendimento calvinista, tende a fazer de Deus o autor do peca­do, por ter Ele escolhido, na eternidade passada, quem seria ou não salvo, e 2) o livre-arbítrio do ser humano é negado no ensino de uma graça coercitivamente irresistível.[xxiii]
A teologia arminiana, tal como conhecemos, não foi totalmente sistematizada durante a vida de Armínio. Após a sua morte, seus discípulos (pouco mais de quarenta pregadores) cristalizaram suas ideias em um panfleto o qual continha resumidamente, cinco pontos que rejeitavam o rígido calvinismo, intituladoRemonstrance (protesto), publicando-o no dia 19 de outubro de 1609, expondo assim, a posição arminiana.[xxiv]
O Sínodo de Dort

Esse protesto (remonstrância), ganhou o apoio de estadistas e líderes políticos holandeses que tinham ajudado a libertar os Países Baixos da Espanha. Os opositores do movimento remonstrante acusaram-nos de apoiar secretamente os jesuítas e a teologia católica romana e de simpatizar com a Espanha, embora não haja nenhuma evidência de culpa por parte dos que protestavam em relação a essas acusações políticas.
Desde então, houve muita confusão em várias cidades holandesas: sermões eram pregados contra os remonstrantes, panfletos eram espalhados a fim de difamá-los como hereges e traidores, pessoas foram presas por pensarem contra o alto calvinismo e um sínodo nacional de teólogos e pregadores foi realizado para regular tais controvérsias entre as ideias paradoxais calvinismo x arminianismo.
A primeira reunião do sínodo foi realizada em 13 de Novembro de 1618 e a última (154ª) em 9 de Maio de 1619, contando com a presença de mais de cem delegados, inclusive alguns da Inglaterra, da Escócia, da França e da Suíça. O nome “Dort” é usado em função do idioma inglês, como que transliterandoo nome da cidade holandesa de Dordrecht.
Na conclusão do sínodo, os remonstrantes foram condenados como hereges. Pelo menos duzentos foram depostos do ministério da igreja e do estado e cerca de oitenta foram exilados ou presos. Um deles, o presbítero, estadista e filósofo Hugo Grotius (1583-1645), foi confinado em uma masmorra da qual posteriormente conseguiu escapar. Outro estadista foi publicamente decapitado.
Neste sínodo, as ideias arminianas foram, portanto, rejeitadas e a doutrina reformada estabelecida em seus cinco pontos que formam o acróstico do inglês TULIP, a saber: 1) depravação total (Total depravity), 2) eleição incondicional (Unconditional election), 3) expiação limitada (Limited atonement), 4) graça irresistível (Irresistible grace) e 5) perseverança dos santos (Perseverance of the saints). Os pontos remonstrantes vão de encontro aos pontos calvinistas: 1) depravação total, 2) eleição condicional, 3) expiação ilimitada, 4) graça preveniente e 5) perseverança condicional.

Mitos sobre o arminianismo

Como podemos perceber, as ideias arminianas possuem uma disparidade considerável com o sistema calvinista. Sobre isso, Wyncoop declara que, a linha divisória entre estas duas tradições cristãs repousa sobre teorias opostas acerca da predestinação. Ela é a encruzilhada entre a soberania de Deus e a responsabilidade do homem, o pecado e a graça, a justificação e a santificação, a fé humana e a obra do Espírito Santo.[xxv]
Um dos principais mitos sobre o arminianismo, é que este tem sido acusado erroneamente de ser uma doutrina semipelagiana por parte de alguns eminentes teólogos calvinistas. Esta antiga heresia é oriunda dos ensinos dos massilianos, liderados principalmente por João Cassiano (433 d.C), o qual tentou construir um elo entre o Pelagianismo, que negava o pecado original, e Agostinho, que defendia a eleição incondicional sobre o fundamento de que todos os homens nascem espiritualmente mortos e culpados do pecado de Adão. Cassiano acreditava que as pessoas são capazes de se voltarem para Deus mesmo à parte de qualquer infusão da graça sobrenatural. Isto foi condenado pelo Segundo Concílio de Orange no ano de 529.[xxvi]
O teólogo nazareno H. Orton Wiley mostra que o sistema semipelagiano sustentava, erroneamente, que “restou poder suficiente na vontade depravada para dar o primeiro passo em direção à salvação, mas não o suficiente para completá-la”. Ele conclui mostrando que esse pensamento é equivocado e que o homem por si só não tem condições de se achegar a Deus, mas que “isso deve ser feito pela graça divina.” [xxvii] Essa é a graça preveniente que antecede, prepara e capacita o homem para “converter-se do pecado para a retidão, a crer em Jesus Cristo para perdão e purificação dos pecados e a praticar obras agradáveis e aceitáveis” [xxviii], pois os seres humanos, pela queda de Adão “se tornaram depravados, de maneira que agora não são capazes de se voltar e se reabilitar pelas suas próprias forças e obras, e, desta forma, renovar a fé e a comunhão com Deus”.[xxix]
Um dos principais eruditos arminianos da atualidade, o Dr. Roger Olson, em uma defesa à centralidade da doutrina arminiana em Deus e não no homem como dizem certos calvinistas, comenta que esses críticos normalmente de baseiam em três argumentos: 1) que o Arminianismo foca demais na bondade e capacidade humana, especialmente no campo da redenção, 2) que limita a Deus ao sugerir que a vontade de Deus pode ser frustrada pelas decisões e ações humanas e 3) que coloca demasiada ênfase na realização e felicidade humana em negligência ao propósito de Deus que é glorificar a si mesmo em todas as coisas.
Olson argumenta sua defesa de forma bastante contundente nesse artigo e comenta que “muito raramente os críticos mencionam algum teólogo arminiano ou citam do próprio Armínio para apoiar essas acusações” e que a maioria desses críticos desconhece o arminianismo clássico, tendo portanto, um entendimento preconcebido e consequentemente superficial do assunto.[xxx]
Em contrapartida, o pensamento calvinista é concebido pelos arminianos como um sistema que acaba por fazer do decreto divino a causa primeira da salvação, ao passo que a morte de Cristo torna-se causa secundária e subsidiária, não sendo absolutamente essencial para a salvação, mas um elo de uma corrente predeterminada de eventos.[xxxi]

Conclusão

Nossa percepção não é diferente: muitos são os que ainda não compreenderam e não conheceram a doutrina da salvação segundo a ótica arminiana e infelizmente, alguns irmãos não conseguiram abrir a cabeça para gozarmos uma verdadeira unidade na diversidade. [xxxii]
Apesar das diferenças, ambas as posições possuem verdades essenciais que podem e devem nos unir em Cristo. Identificamo-nos com certa linha teológica e a defendemos, todavia, isso não pode criar partidarismo, ao ponto de dizermos “eu sou de Paulo; ou, eu de Apolo; ou eu sou de Cefas; (ou, eu de Armínio; ou, eu de Calvino;) ou, eu de Cristo. Será que Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado por amor de vós? Ou fostes vós batizados em nome de Paulo?” (1 Co 1.12,13 – paráfrase minha).
John Wesley dizia que “é dever de todo pregador arminiano, primeiro: jamais, nem em público, nem em particular, usar a palavra calvinista em deboche”.[xxxiii] Para ele, a norma de um metodista não estava em distinguir cristãos de cristãos, mas em distinguir-se cristãos de não conversos: “É teu coração reto como o meu? Não te pergunto mais. Se for assim, dá-me a mão. Por opiniões ou termos, esforcemo-nos juntos pela fé do evangelho”.[xxxiv]
O Dr. Augustus Nicodemus, célebre teólogo brasileiro do pensamento reformado confirma que temos pontos em comuns dizendo que “os arminianos e os calvinistas concordam que Deus tem um plano, que ele controla a história, que não existe acaso e que Ele conhece o futuro. Ambos aceitam a Bíblia como Palavra de Deus e querem se guiar por ela”.[xxxv]
Que possamos, como Igreja, cumprir a missão que nos foi ordenada, afinal, fomos todos “eleitos segundo a presciência de Deus Pai, na santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pe 1.2).


Fonte:
[i] MCGIFFERT, Arhur Cushman. A History of Christian Thought, Volume 2. Charles Scribner’s Sons, 1953, p. 125.
[ii] Ibid, p. 126.
[iii] KELLY, J. N. D. Patrística: Origem e desenvolvimento das doutrinas centrais da fé cristã. Vida Nova, 1994, p. 270.
[iv] AGOSTINHO, Aurelio. De civitate Dei 14.11.
[v] AGOSTINHO, Aurelio. Enarrationes in Psalmos 89.4.
[vi] AGOSTINHO, Aurelio. De gratia Christi et Peccatum Originale 1.25.
[vii] AGOSTINHO, Aurelio. De gratia et libero arbitrio liber 31; De Spiritu et Littera 52.
[viii] KELLY, J. N. D. Op. Cit., p. 125.
[ix] Ibid, p. 131.
[x] Ibid, p. 134.
[xi] Ibid, p. 263-264.
[xii] Ibid, p. 283.
[xiii] Ibid, p. 283.
[xiv] AQUINO, Tomás de. Suma Teológica I.19.1.
[xv] AQUINO, Tomás de. Suma Contra Gentios IV.19.
[xvi] AQUINO, Tomás de. Questões disputadas sobre o mal 6.
[xvii] FESER, Edward. Aquinas, a Begginer’s Guide. One World, 2009, pp. 150-151.
[xviii] SWEENEY, Charles. Indulgences. Enciclopédia do site newadvent.org. Disponível em: http://www.newadvent.org/cathen/07783a.htm. Acesso em 04/04/2013 às 16:46.
[xix] Os cinco solas foram expressões surgidas durante a Reforma Protestante e significam, respectivamente, somente a fé, somente as Escrituras, somente Cristo, somente a graça e somente a Deus a Glória. As frases, que foram escritas em latim, sintetizam os rudimentos fundamentais dos reformadores.
[xx] CALVINO, João. Comentário de Salmos. Volume I. Fiel, 2009, p. 32.
[xxi] CHAMPLIN, R. N.; BENTES, J. M. Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia, volume 1. Candeia, 1991. p. 288.
[xxii] SCHNUCKER, Robert. Theodore Beza, in: The new international dictionary of the Christian church. Grand Rapids, Zondervan, 1974, p. 126.
[xxiii] HORTON, Stanley (Org.). Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. CPAD, 1996, pp. 54-55.
[xxiv] Infelizmente, não possuímos muito material arminiano em idioma português. Para maiores informações biográficas sobre Armínio consultar BANGS, Carl. Arminius: a study in the Dutch reformation. Grand Rapids, Zondervan, 1985.
[xxv] WYNKOOP, Mildred Bangs. Fundamentos da Teologia Arminio Wesleyana. Casa Publicadora Nazarena, 2004, p. 17.
[xxvi] KELLY, J. N. D. Op. Cit., pp. 289-291.
[xxvii] WILEY, H. Orton. Christian Theology. Beacon Hill Press, 1941. p.103.
[xxviii] Manual da Igreja do Nazareno, p. 29
[xxix] Ibid. p. 28
[xxx] OLSON, Roger. Arminianism is God-centered theology. Disponível em: . Acesso em 05/04/2013.
[xxxi] WYNKOOP, Mildred Bangs . Op. Cit., p. 33.
[xxxii] Para um estudo mais aprofundado sobre a doutrina arminiana, ver a recém-traduzida obra de Olson, na qual ele trata de desmitificar pelo menos dez pressupostos equivocados acerca do pensamento de Armínio: OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Editora Reflexão, 2013.
[xxxiii] WESLEY, John. What is an arminian?, Sermões
[xxxiv] WESLEY, John. The Character of a Methodist, Sermões.
[xxxv] NICODEMUS, Augustus. Paganismo versus Cristianismo – Acaso ou Desígnio Divino? Revista Defesa da Fé. Ano 12, n° 89 – Janeiro/Fevereiro de 2011, p.55.
“As opiniões e textos aqui publicados são de total responsabilidade dos autores”


autor: Pr. Vinicius Couto é ministro da Igreja do Nazareno. Graduado em Administração de Empresas pela Universidade Castelo Branco, Bacharel em Teologia pela FAETESF e pós-graduado em História da Teologia e em Ciências da Religião. É professor de Teologia Sistemática, articulista da Revista Defesa da Fé e autor dos livros “Os três Choros de José do Egito” e de “A Verdade Sobre o G-12”.


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