Lídia, uma empreendedora cristã

Lídia entra em cena no texto bíblico a partir de um encontro com o apóstolo Paulo. No começo de sua segunda viagem que Paulo encontrou-se com Lídia, na cidade de Filipos. Quem era Lídia? Lídia foi a primeira pessoa da comunidade de Filipos que aceitou a mensagem do evangelho anunciada por Paulo e que se batizou, aceitando a salvação dada por Jesus Cristo (Atos 16.12-15). A história de Lídia está registrada em Atos 16.11-15. 

Neste capítulo 16, Lucas registra três incidentes separados, mas relacionados. O primeiro é a conversão de Lídia (16:13-15). O segundo é o encontro com a escrava possessa por um espírito de adivinhação, de quem eventualmente Paulo expulsa o demônio (versos 16 ss.). O terceiro incidente é a conversão do carcereiro de Filipos e sua família. A conversão da casa de Lídia é a primeira e do carcereiro e sua família são as últimas conversões nesta passagem pela cidade, conforme o que nos é dito. Nós nos ocuparemos da primeira conversão e dos princípios e lições importantes que encontramos nesta história relatada por Lucas, tanto para as mulheres que leem este estudo, como para qualquer cristão.Para o teólogo Henry C. Thiessen[1], este conjunto de fatos demonstra a providência divina. Segundo ele, “providência é a atividade contínua de Deus que faz com que todos os eventos físicos, mentais e morais alcancem Seus propósitos”[1] em outras palavras, "as obras da providência de Deus são a sua mui santa, sábia e poderosa maneira de preservar e governar todas as suas criaturas e todas as suas ações, para a sua própria glória.”

As poucas informações que temos sobre Lídia estão registradas na Palavra de Deus. Lídia era uma comerciante. Ela era natural da cidade de Tiatira. Tiatira era um importante centro manufatureiro: tintura, confecções, cerâmica e trabalhos em bronze faziam parte da sua pauta de exportações. Lídia era uma vendedora de tecido e corantes em Filipos. Os tecidos tingidos, que Lídia vendia eram bastante caros, coisa fina, comprados apenas pela elite política e militar de Filipos. Por isso não é difícil imaginar que ela era um mulher bem relacionada na alta sociedade filipense. O Valor da Purpura era muito alto, somente a elite poderia adquirir tal tecido, isso revela que Lídia acessava a todos os níveis sociais da sociedade, desde a mais pobre a mais rica, incluindo pagãos e cristãos, ela sabia lidar com todos. Estudos antigos revelam que o o preço da púrpura poderia facilmente ultrapassar a casa dos 2.500 denários, o equivalente a 2.500 dias de trabalho. A Púrpura era um artigo de luxo, que somente a elite poderia adquirir.

No texto, ela coloca sua casa à disposição de Paulo, Silas, Lucas e outros que talvez estivessem com eles. Não era uma casa pequena. E para mantê-la, Lídia deveria contar com alguns empregados. Por isso é razoável concluir que Lídia provavelmente gozava de excelente situação financeira. Além disso, os tecidos de púrpura eram caríssimos e os lucros deveriam ser muito bons. Por séculos, a cor púrpura, era obtida através de algumas espécies de molusco nativos do Mar Mediterrâneo, o que causou extinção de algumas delas. Pela dificuldade na sua obtenção e seu alto preço, o púrpura, um dos mais importantes e mais caros pigmentos naturais da Antiguidade era preparado com tintas de vários moluscos — incluindo Murex brandaris e Purpura haemostoma encontrados na costa do Mediterrâneo e do Atlântico e nas Ilhas Britânicas. A secreção do molusco está contida dentro de uma pequena veia ou cisto que, quando quebrada ou partida pela mão, segrega um fluido branco. Os tecidos eram banhados neste fluido branco e postos a secar ao sol que "revela" a tintura púrpura brilhante.

Lídia era uma mulher independente. Tinha seu próprio negócio e aparentemente não precisa prestar contas a ninguém. Ela convidou Paulo para hospedar-se em sua casa sem ter a necessidade de consultar qualquer outra pessoal. Não se sabe se Lídia era solteira ou mesmo uma viúva. E o que chamou atenção de Lucas, é que ele a identifica como uma mulher temente a Deus. Essa expressão não tinha o mesmo significado que tem hoje. Lídia não era judia nem cristã. Ela não era uma mulher com um profundo relacionamento com Deus. Na verdade a expressão “temente a Deus” servia para identificar aquelas pessoas que tinha simpatia pelo Judaísmo, mas que ainda não se haviam convertido àquela religião. Como simpatizante, Lídia deveria ter ouvido algo sobre o messias e escutado alguma coisa sobre as promessas do Deus criador de todas as coisas. 

O EncontroDepois da longa viagem de Antioquia até Filipos, Paulo descansou. Ele tinha a informação de que algumas pessoas usavam a margem de um rio, fora da cidade, para orar e conversar sobre Deus. No Sábado, ele se dirigiu para lá e começou a apresentar o evangelho de Jesus às mulheres que estavam por perto. Uma daquelas mulheres era Lídia, a vendedora de púrpura.

A vida não é só trabalho. O que fazia a empresária do ramo de confecções, em pleno sábado, sentada na beira do rio junto com outras mulheres? Porque ela não estava conferindo a vendas da semana e verificando os pagamentos da semana seguinte? Porque ela não estava negociando melhores preços com os mercadores que chegaram de Tiatira? Porque ela estava em um chá beneficente promovido pela esposa de um militar romano, onde poderia conquistar outros clientes? Por um motivo simples. É saudável e necessário trabalhar, mas a vida não é só trabalho. Lídia parou os negócios para orar.

Há mulheres com grande capacidade de trabalho, talvez Lídia fosse assim, talvez você seja assim. Inúmeras atividades ao mesmo tempo: compra mercadorias, vende seus produtos e serviços, arruma a casa, orienta os funcionários, vai ao banco, conversa com os filhos, apóia o marido, vai ao supermercado, sorrir para o cliente, aconselha a amiga, negocia como fornecedor, dá um jeito no cabelo, escolhe a carne da semana, pechincha o preço, acerta um prazo. Você precisa parar!

A vida não é só trabalho! Era sábado e Lídia parou os negócios para orar e conversar sobre Deus. Quando é que você para? Ou você acha que não precisa? Ou você pensa que não dá? É muito bom realizar-se profissionalmente, dá muito prazer ser reconhecido por aquilo que se faz, mas a vida não é só trabalho.

É preciso parar pra tocar a família. Não é só alimentar vestir e dar conselho, mas abraçar beijar, ficar junto, sorrir junto. Quando é que você para pra estar em família?

É preciso parar pra ver a si mesma. Olhar-se no espelho, olhar pra dentro si, sentir suas dores e alegrias, enxergar para onde se está caminhando e quem realmente somos. Quando é que você pára pra ver a si mesma?

E mais que tudo é preciso parar pra ficar junto de Deus. Colocar uma trava na vida que nos permita contemplar o que há de mais importante: a presença do Deus eterno. Essa era a idéia do shabat, do descanso: Parar e contemplar a Deus em oração e reflexão. Você tem que parar, se não a jornada vai ficar cada vez mais difícil e cansativa. Quando é que você pára pra ficar junto de Deus?

Sensibilidade à Palavra de DeusOutro aspecto importante da vida de Lídia é sua sensibilidade à Palavra de Deus. Ela achava bom ouvir sobre Deus. Quando Paulo se aproximou e começou a falar sobre o evangelho de Jesus, ela prontamente quis saber do que se tratava. Talvez ela já tinha ouvido falar sobre o Deus Iavé e sobre os feitos tremendos que o povo de Israel vivera no passado, mas Jesus ela não conhecia.

Então, seu coração, sensível às coisas eternas, foi aberto pelo Senhor para atender às coisas que Paulo dizia. A palavra grega usada por Lucas para descrever a atitude de Lida, traduzida como atender, tem o sentido de... Ocupar a mente em... Prestar atenção a... Ser cuidadoso sobre... Aplicar-se a... Aderir a... Depois de parar e orar, a comerciante de Tiatira agora está prestando atenção. Deus abriu seu coração, lhe fez sensível. Ela decidiu ocupar sua mente em compreender o evangelho de Jesus, optou por aplicar-se a tudo que Paulo lhe falava e por fim aderiu à mensagem salvadora de Jesus. Lídia descobriu que há algo maior e melhor do que tudo: conhecer ao Senhor Jesus e viver para Ele. Não é abandonar a vida, mas viver a vida para o louvor de Deus, do jeito que se alegra e que é o melhor para nós. 

Disposição e Decisão para AjudarEm seu negócio, Lídia era acostumada a tomar decisões, a solucionar problemas. Não é demais dizer ela gostava de fazer parte das soluções. Depois de ser batizada e conduzir sua família ao batismo, Lídia colocou sua casa à disposição para hospedar Paulo e os demais irmãos. Ela viu a necessidade e decidiu ser parte da solução. Há pessoas que simplesmente tentam encontrar culpados que não sejam elas mesmas. A Palavra, através de Lucas, nos informa que “Ela foi batizada com toda a família, e nos pediu que ficássemos como seus hóspedes. “Se os senhores concordam que sou fiel ao Senhor” disse ela, “venham ficar em minha casa”. E ela insistiu até que fomos. Lídia foi a primeira pessoa da comunidade de Filipos que aceitou a mensagem do evangelho anunciada por Paulo e que se batizou, aceitando a salvação dada por Jesus Cristo (Atos 16.12-15). Ela foi uma liderança importante na comunidade porque toda a casa de Lídia também se batiza. Quando há uma referência a toda a casa de uma personagem, há uma abrangência não apenas aos que moravam com ela, mas também aos que trabalhavam junto, ou seja, todo o seu círculo de relações. A casa de Lídia foi fundamental para o estabelecimento da comunidade cristã em Filipos. É o lugar que vai hospedar Paulo e seu companheiro e depois tornar-se a casa de encontro dos cristãos, nessa comunidade. É nela onde Paulo e Silas encontram os irmãos, que já estavam no caminho de vida cristã, depois que saem da prisão (Atos 16.40). Lídia antes de se batizar era do grupo dos chamados temente a Deus, ou seja, era piedosa, venerava o Senhor Deus, como o único e verdadeiro Deus, embora não fosse israelita

ConclusãoLídia era uma comerciante bem sucedida em seus negócios. Ela havia prosperado financeiramente, era respeitada na sociedade, andava sempre bem vestida e tinha amigos influentes. Lídia descobriu que nada disso fazia realmente sentido sem que o vazio existência que ela levava no peito fosse preenchido. Quando ela ouviu Paulo falar sobre Jesus o filho de Deus. Aquele cujo amor por nós foi maior que amor por sua própria vida, Lídia entregou-se por inteira e tornou-se a primeira pessoa da Europa, que se tem registro, a aceitar a Salvação através de Cristo Jesus. Lídia gostava das cores, ela vendia tecidos coloridos, mas descobriu que em Jesus, as cores ganham vida e a vida passa a ter sentido.


[1] Henry C. Thiessen, Lectures in Systematic Theology, Eerdmans Publishing Company, 1949 edição, p. 177. (traduzido do Google)

Veja mais: Cartas às sete Igrejas


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