Eclesiologia - alcancevitoria | 2016

Escrito por Manoel Soares Cutrim Filho

Conforme afirma Robert Hastings Nichols, “O protestantismo luterano e o reformado concordaram no princípio central da Reforma: O Sacerdócio de todos os crentes, a possibilidade do pecador dirigir-se ao seu Deus, pessoalmente, sem intermediários, exceto Jesus Cristo”. [1] O Sacerdócio universal de todos os crentes é um dos princípios que Deus tem mais zelo na dinâmica de Sua Igreja, ao longo dos séculos, mas parte significativa dos líderes religiosos teima em deixá-lo de lado. A inobservância de tal princípio, possivelmente, é dentre todos, o que mais tem trazido mal à Igreja do Senhor Jesus, aqui na terra. O nepotismo, a corrupção e o clericalismo, próprios da Igreja Romana Medieval, que de alguma forma ainda se manifestam nos dias atuais e a perda da visão espiritual da Igreja Cristã do primeiro século têm muito a ver com a não observância do sacerdócio universal de todos os crentes.

O Senhor rompeu, prescindiu da ordem sacerdotal segundo Arão, o sacerdócio levítico (Hb 7. 11-14). Se desejasse que Jesus tivesse nascido de um descendente de Arão certamente teria nascido em Jerusalém, onde ficava o sumo sacerdote e demais sacerdotes, seus auxiliares, mas nasceu em Belém, criou-se em Nazaré e fez sua base ministerial em Cafarnaum, que não eram a capital política tampouco econômica de Israel. Jesus nasceu como descendente de Davi, que não obstante ter sido rei, Sua origem não era nobre, mas plebéia.

Que lição, dentre outras, tiramos destes aspectos relacionados ao local de nascimento e da ascendência de Jesus? Primeiro, a Nova Igreja constituída por Deus, em Cristo, não está fundamentada em uma linhagem especial de pessoas, mas numa linhagem espiritual, dos alcançados pela graça de Deus. O Seu evangelho e a liderança de Sua Igreja são para todos os povos línguas e nações, não necessariamente para pessoas de nobre nascimento. Segundo, Ele e Seus discípulos não estavam concentrados e não exerciam as suas principais atividades na capital política e econômica de Israel (Jerusalém), da mesma forma a Sua Igreja não deve ter uma dependência exclusiva dos grandes centros urbanos, mas espalhar-se pelas vilas, aldeias e povoados.
Segundo Ilídio Burgo Lopes, há três “princípios fundamentais da Reforma, comuns a todos os ramos do Protestantismo, e que estabelecem entre eles uma profunda unidade espiritual. São os que se seguem: 1 – A salvação pela fé; 2 – a autoridade da Bíblia; 3 – O sacerdócio Universal dos crentes”. [2] A Reforma proclamou que existe um sacerdócio universal dos crentes. Evidentemente, se todos os cristãos podem receber, pela fé, a salvação e o perdão dos pecados, não estão sujeitos a ritos sacerdotais, nem dependem de uma classe ou casta especial para obter acesso a Deus. [3]

Vários movimentos inspiraram os pioneiros das Igrejas de Cristo, dentre esses movimentos estão os valdenses e os lolardos. Os valdenses tentaram restaurar aquela comunidade de servos uns dos outros que se perdera na romanização da Igreja, por meio de uma vida simples e comunal; prática da ceia, do batismo e a pregação pelos leigos. Já os lolardos, liderados por João Wycliffe, que perambularam descalços pela Grã Bretanha, procurando restaurar a autoridade única e exclusiva das Escrituras na Igreja. Além das teses de seu líder, defendiam que o povo deveria ter a Bíblia na sua própria língua e que não há distinção ente o clero e o laicato.[4] e [5]

Há uma frase muito sugestiva que vi no site da Igreja de Cristo em São Paulo liderada pelo irmão Jeff Fife, que diz: "Não reconhecemos qualquer classe especial de clérigos, mas praticamos o sacerdócio universal de todos os crentes, fazendo todos responsáveis pela propagação de boa mensagem e progresso do trabalho da Igreja" (Mt 23.8, I Pe 2.9).

Com o tempo o sacerdócio universal do povo de Deus foi alterado radicalmente pelo romanismo, substituindo-o por uma classe “sagrada”. [6] O próprio clero foi absolvido pelo Papa, nele concentrando toda a autoridade, em cujas mãos estariam as chaves do Céu. Se ele se recusar em abrir a porta, ninguém, absolutamente ninguém, poderá entrar. Tornando-se uma tirania antibíblica e antidemocrática. Merle d’Aubigné diz que “Igreja era a princípio um povo de irmãos, mas estabeleceu, em seu seio, uma monarquia absoluta”. [7] Os nossos líderes devem ser respeitados, honrados, todavia, jamais idolatrados como, infelizmente, muitos ainda o fazem.

Contra essa tirania, reagiu a Reforma, e restituiu aos fiéis o direito sagrado, conferido pelo próprio Cristo, dando pleno acesso ao trono do Altíssimo. Vicente Temudo Lessa no seu livro “Lutero”, assim se exprime: “.... que todos os cristãos, pelo batismo, pelo evangelho e pela fé, pertencem ao estado espiritual, sejam clérigos ou leigos, sendo a diferença de ofício ou função apenas. A idéia então em voga excluía os leigos do serviço da Igreja”. [8] Ocorre que a Igreja Evangélica Brasileira, não obstante ter saído da Igreja Romana, ainda não deixou Roma sair dela, no que toca à visão do sacerdócio universal de todos os crentes, muito provavelmente pela forte influência da Igreja Católica desde a colonização do Brasil até aos dias atuais. Na mente do povo, a oração do padre vale mais do que a do simples fiel da igreja, da mesma forma que a oração do bispo vale mais do que a do padre. Será que a Igreja Evangélica Nacional é diferente?

Ainda conforme Ilídio Burgo Lopes, “O Sacerdócio de todos os fiéis preconizado pela Bíblia foi reconhecido como um dos princípios fundamentais do Protestantismo. A teologia medieval colocava a mediação do padre entre Deus e o pecador” [9]. A Igreja, com a doutrina das indulgências tornava essa mediação mais cômoda, a troco de alguns ducados. O acesso direto a Deus não era permitido e o Papa, por meio de uma “bula” tinha o poder de privar uma nação inteira dos serviços religiosos. Os reformadores, baseados nos textos bíblicos, pregaram a comunhão com Deus, pela mediação somente de Cristo, a clérigos e a leigos. [10]

A prática efetiva do sacerdócio universal de todos os santos (crentes) leva cada líder e cada cristão a uma vida despojada da soberba da busca de reconhecimentos e títulos, é o que constatamos no relato de J. Lee Grady, editor da revista evangélica americana Charisma, resultante de sua visita quando entrevistou líderes do movimento clandestino da "Igreja nas Casas" da China:
“Um líder me explicou que supervisiona 5.000 igrejas numa área rural. Você é um bispo ou um apóstolo? Perguntei, tentando entender os termos que eles usam. ‘Nós não usamos títulos’, me explicou. ‘Nós simplesmente nos chamamos de irmãos e irmãs’. O Sr.Yu, que é o nome que vou usar para ele, é como o apóstolo Paulo da China. Ele viu pessoas ressuscitarem de entre os mortos, e uma vez ele viu Deus paralisando sobrenaturalmente um oficial do governo que ameaçava suspender uma reunião evangelística ao ar livre. Mas o Sr. Yu não esperava nenhum tratamento especial ao passar algum tempo comigo e com seus colegas em janeiro. Ele usava uma simples camisa de manga curta, comeu o mesmo peixe com arroz que nós comemos, e comparecia para a oração como qualquer outra pessoa, antes de cada reunião. Geralmente ele tomava seu assento no fundo da sala (grifos nosso ).

Amados, confesso que ao transcrever as citações do parágrafo anterior, chorei! Chorei de vergonha diante do nosso Deus pelo Evangelho que parte significativa da Igreja Evangélica Brasileira está pregando e vivendo. Que Deus nos proporcione um Evangelho não centrado no ser humano e nas suas mesquinhas buscas pelo “sucesso ministerial”, mas no pregar e viver um evangelho centrado na Pessoa de Cristo. Só assim podemos ter o sopro do seu Espírito Santo, como Ele tem feito em grandes avivamentos ao redor do mundo! Lembremos que o nosso Deus não divide a sua glória conosco, Suas criaturas (Is 42.8b).

Deus Tenha misericórdia de nós e nos use, para a Sua glória, como seu povo, no Brasil !
* Igreja em Caldas Novas – GO.
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[1] NICHOLS, Robert Hastings. História da Igreja Cristã, Casa Editora Presbiteriana, 5ª Edição revisada, 1981, p. 173.
[2] LOPES, Ilídio Burgo, A Reforma Religiosa do Século XVI, Livraria Independente Editora, 1955. p. 35.
[3] LOPES, Ilídio Burgo, op. cit., p. 41.
[4] FIFE, Thomas W. Apostila: Igreja do Novo Testamento, p. 11. 1991
[5] WILLIAMS, Terri, Cronologia da História Eclesiástica, Edições Vida Nova, p. 71.
[6] LOPES, Ilídio Burgo, op. cit., pp. 41/42.
[7] "D’Aubigné, J.H. Merle. História da Reforma do Décimo-Sexto Século. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, s.d. apud Lopes, I. B., op. cit. p. 42..
[8] LOPES, Ilídio Burgo, op. cit., p. 42.
[9] LOPES, Ilídio Burgo, op. cit., p. 42.
[10] LOPES, Ilídio Burgo, op. cit., pp. 42/43.