Eclesiologia - alcancevitoria | 2016

Escrito por Marcelo Galhardo

Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. (1 Pedro 2.4-5,9)

No Antigo Testamento os sacerdotes ofereciam sacrifícios e intercediam pelo povo. O que os sacerdotes eram para Israel, Israel, como comunidade do reino de Deus, deveria ser para as nações: se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos... vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa (Êxodo 19.5-6). Deus predisse: vós sereis chamados sacerdotes do Senhor, e vos chamarão ministros de nosso Deus (Isaías 61.1). Na interpretação do Novo Testamento, esta profecia se cumpre sob dois aspectos: (1) Jesus Cristo é o grande sumo sacerdote (Hebreus 4.14) e (2) todos os crentes partilham deste sacerdócio (1 Pedro 2.4-9). O princípio da igreja como uma comunidade de sacerdotes foi defendido pelos reformadores e nos faz refletir o quanto é importante para a nossa vida como cristãos nos dias de hoje.

Em primeiro lugar, este princípio resgata um legado, ou seja, a disposição feita por Deus em testamento tanto para a nossa salvação quanto para a missão especial que ele dá a cada um de nós. Este legado vem de Deus: ele fez o resgate da criação caída (Adão e Eva) para nos tornar filhos amados (Jesus) com a função de que sirvamos igualmente a Deus. Em outras palavras, se você é convertido, quer seja um profissional liberal, um funcionário público, um professor ou exerça qualquer outra função, você é um sacerdote no reino de Deus.

Em segundo lugar, com base neste princípio, firmamos a nossa identidade em Cristo Jesus. Nele, a pedra eleita e preciosa, somos, como pedras vivas, edificados casa espiritual para sermos sacerdócio santo (1 Pedro 2.4-5). Em Cristo somos raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus (1 Pedro 2.9a). Quando ele morreu, o véu do santuário se rasgou em duas partes de alto a baixo (Mateus 27.51). Agora, não apenas o sumo sacerdote, mas todos nós, temos acesso ao Santo dos Santos para a adoração do Deus vivo (Hebreus 10.19-22). Todos nós, discípulos de Cristo, podemos contemplar a glória do Senhor e refletir esta glória no mundo (2 Coríntios 3.18).

Em terceiro lugar, este princípio nos leva a uma tomada de posição, pois toda essa batalha travada no mundo físico e espiritual, chamada Reforma Protestante, não teria valor se apenas fosse contada como uma história. Como parte do povo de Deus, somos sacerdócio real com o objetivo definido de proclamar as virtudes daquele que nos chamou das trevas para à sua maravilhosa luz (1 Pedro 2.9b). O que somos em Cristo (identidade) está ligado ao que fazemos por Cristo (missão).

Por muitos anos esta verdade ficou obscurecida e o sacerdócio ou ministério foi destinado a pastores e missionários de carreira. Porém, voltando-nos para as Escrituras, percebemos que Jesus revelou ao mundo em todas as gerações que essa é a missão de todos os crentes. Ao relembrar os princípios da Reforma Protestante, não apenas celebramos seu aniversário, mas temos a expectativa de que Deus reavive esses princípios em nosso coração, por meio do Espírito Santo. Cabe a cada um de nós não atrapalhar esta ação do Espírito Santo, para que vivamos o grande desafio expresso no lema: "Uma vez reformados sempre reformando".


Marcelo Galhardo, pastor adjunto na IPI de Londrina-  Texto originalmente publicado no site www.ipilon.org.br