Eclesiologia - alcancevitoria | 2016

Escrito por Silas Alves Figueira

“Conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua perseverança; sei que não podes suportar os maus, e que puseste à prova os que se dizem apóstolos e não o são, e os achaste mentirosos; e tens perseverança e por amor do Meu nome sofreste, e não desfaleceste. ...Tens, porém isto; que aborreces as obras dos nicolaitas, as quais Eu também aborreço.” Apocalipse 2:2-3, 6.  O povo de Deus nesta fase da história enfrentou forte oposição, dentro e fora da sua comunidade. Na sua perseverança, os efésios suportaram as mais duras provas e não desanimaram. Depois de tantas advertências sobre o perigo de falsos mestres, a defesa da verdade se tornou um ponto forte para o povo de Deus durante o período apostólico. Falsos apóstolos foram desmascarados. Eram os chamados “falsificadores da palavra de Deus” (II Coríntios 2:17) e esses tais falsos apóstolos foram considerados “obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo” (II Coríntios 11:13). Todos foram postos à prova e desmascarados como mentirosos.Cartas às sete Igrejas

No primeiro século d.C. o povo de Deus sofreu muito no desempenho de sua missão. Ele foi duramente perseguido pelos judeus e pelos romanos, sendo todos os apóstolos, com exceção de João, martirizados. Com eles muitos outros foram sacrificados sob o comando dos imperadores romanos Nero (54 a 68 d.C.) e Domiciano.(81 a 96 d.C.). Embora perseguidos, os apóstolos atiraram-se denodadamente aos quatro quadrantes do mundo em conquista de almas para Cristo (Colossenses 1:23).

O que é notável nesta carta à Igreja em Éfeso, é que Cristo não só se dispôs a exaltar as suas boas obras e o seu excelente trabalho, como suas atitudes em aborrecer as obras dos “NICOLAITAS”. A história não registra dados precisos sobre os nicolaitas. Uma vez que o Apocalipse é um livro profético, devemos atentar para o significado desta palavra. “Nicolaita” em grego é composto por duas palavras e que tem o seguinte significado:

NIKAO = conquistar (no sentido de dominar); LAOS = povo, gente, multidão.

Portanto, o termo “NICOLAITAS” tem o sentido de “DOMINADORES DO POVO”. Infiltrados nas igrejas do primeiro século, os nicolaitas tentaram introduzir a idéia de uma hierarquia eclesiástica com a finalidade de exercer o poder sobre o povo. Esse movimento, no entanto, foi corajosamente rechaçado durante esse período da história da igreja de Deus, pois o texto de Apocalipse 2:6 diz: “Tens, porém, isto, que aborreces as obras dos nicolaitas, as quais Eu também aborreço.” Infelizmente anos mais tarde, no quarto século, durante a época representada pela Igreja de Pérgamo (Apocalipse 2:15), os nicolaitas conseguiram oficializar esse sistema de governo centralizador, o qual passou a ser praticado até hoje em quase todas as denominações religiosas. Trata-se de uma hierarquia eclesiástica de poder, reservado unicamente aos ministros do evangelho, selecionados para exercerem a liderança nas igrejas. Este sistema concede a eles a exclusiva autoridade para interpretarem ao povo as Escrituras Sagradas e exercerem o domínio em questões de fé. De acordo com os ensinos da Palavra de Deus, durante a era apostólica as congregações agiam com total independência.

Para esta fase histórica da igreja de Deus, havia uma reprovação por parte de nosso Senhor Jesus.

REPROVAÇÃO: “Tenho, porém contra ti que deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, donde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; e se não, brevemente virei a ti, e removerei do seu lugar o teu candeeiro, se não te arrependeres.” Apocalipse 2:4 e 5.


A igreja apostólica do primeiro século apesar de ter sido valorosa ao evangelizar o mundo e levar multidões a se decidirem pela Palavra de Deus e pelo amoroso Salvador, é, por fim, acusada da perda do primeiro amor. As cartas apostólicas evidenciaram que, quando ainda os apóstolos estavam vivos, aquele primitivo amor já manifestava sintomas de fraqueza. Tomando-se como base a denúncia, admoestação e advertência, conclui-se que a situação era bastante grave. A história ainda se repete nos dias de hoje. O entusiasmo se extingue e as ideias humanas começam a tomar o lugar dos reais ensinamentos de Deus.
Seja como for, a primitiva igreja estava ameaçada de ser removida do seu lugar, ou seja, ameaçada de perder o seu lugar no plano da salvação de Deus. Cristo falou de três passos práticos que o povo de Deus deveria dar a fim de voltar ao primeiro amor: 1) Lembra-te donde caíste; 2) Arrepende-te; 3) Volte a praticar as primeiras obras.

Há de se destacar nesta carta palavras de elogios e de reprovação:

“Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor” (Ap 2.4).

“Tenho, porém, contra ti…”

Observe que a repreensão vem logo após o elogio. Isso faz parte de uma avaliação honesta. Essas duas coisas são extremamente importantes em nossas vidas, pois, se criticarmos aos outros de forma construtiva e também elogiarmos o que há de bom neles, as nossas críticas se mostrarão carregadas de um poder que irá transformar as pessoas para melhor. Porém, se tão somente criticarmos as pessoas, ignorando qualquer coisa de bom que há neles, poderemos apenas feri-los, piorando o estado deles. Por outro lado, se não fizermos outra coisa senão elogiá-los, então eles ficarão extremamente mimados, tendo uma ideia falsa sobre aquilo que realmente são, nada vendo que deva ser modificado, ao passo que, na vida de qualquer pessoa, sempre haverá coisas que precisam de modificação e aprimoramento. Assim como Deus trabalhou com a igreja de Éfeso, do mesmo modo o Senhor trabalha conosco também.

 

“… abandonaste o teu primeiro amor”.

Abandonas-te no grego é “aphekas”, o aoristo de “aphiemi”, que significa “partir”, “ir embora”, dispensar”. Essa mesma palavra era usada para indicar o “repúdio” ou “divórcio”. [1]

Esta igreja tinha mais de quarenta anos quando Jesus ditou esta carta. Outra geração havia surgido. Os filhos não experimentavam aquele entusiasmo intenso, aquela espontaneidade e o ardor que havia revelado os pais quando tiveram o primeiro contato com o evangelho. Não apenas isso, mas faltava à geração seguinte a devoção a Cristo. A igreja de Éfeso tornou-se farisaica, pois ela deixou de herança o zelo pela Palavra, mas como se fosse uma lei, mas não deixou de herança o amor que é o vínculo da perfeição. A igreja havia abandonado o seu primeiro amor. O problema da igreja de Éfeso é, com certeza, o problema da maioria das igrejas de hoje: fazer as coisas sem solidariedade amorosa.

Quando abandonamos o primeiro amor, significa que abrimos mão de algo e elegemos outras coisas em seu lugar. Quando fazemos as coisas por fazer, por causa da instituição ou da denominação, pela sedução do crescimento numérico da igreja, pela fama e pelo status que se obterão na cidade ou coisas do tipo, essas são provas evidentes de que nossas motivações são impuras e estão prostituídas [2].

Aqui é necessário parar e realizar uma urgente avaliação: fazemos as coisas por amor a Deus ou por amor a nós mesmos? Se for por amor a Deus, então a glória será dEle e para Ele; se for por amor a nós e à nossa própria igreja, então a glória será nossa. É necessário decidir, e rápido, antes que o próprio Senhor venha a dizer para nós: “Tenho, porém contra ti!”

Este era um fracasso que atacara sua vida cristã pelas bases. O Senhor tinha ensinado que o amor mútuo devia ser a marca que identificasse a comunhão dos cristãos (Jo 13.35). Os convertidos de Éfeso tinham experimentado este amor nos primeiros anos de sua nova existência; mas a sua luta com os falsos mestres e seu ódio por ensinos heréticos parece que trouxeram endurecimento aos sentimentos e atitudes rudes a tal ponto que levaram ao esquecimento da virtude cristã suprema que é o amor. Pureza de doutrina e lealdade não podem nunca ser substitutos para o amor [3].

A exortação para recuperar o primeiro amor não implica em relaxamento doutrinário. Doutrina sem amor corre o risco de assumir uma rigidez dogmática, na qual as pessoas passam a ser menos importantes. O contrário também é possível: desprezar princípios e valores do evangelho para acalmar ou acomodar certas situações de quem está em pecado. Uma coisa é certa: doutrina sem amor é legalismo. Amor sem doutrina é frouxidão e relaxo. Há necessidade de haver harmonia entre estas duas questões.

Deus muita vezes comparou Israel à Sua noiva e Ele mesmo ao seu noivo ou esposo. Ele fixou nela o Seu amor. No entanto ela começou a flertar com outros amantes, os deuses cananeus. Ela procedeu como uma prostituta com eles. Ela se tornou infiel e abandonou se verdadeiro marido [4].

No Novo Testamento, o novo Israel de Deus, a Igreja, é semelhantemente representado como desposado com Cristo, exatamente como o velho Israel era desposado com o Senhor [5]. Mas, assim como o amor de Israel muitas vezes havia esfriado em relação ao Senhor, esta mesma tendência estava evidente em Éfeso. Aquela primeira sensação de enlevo e êxtase havia passado. Sua antiga devoção a Cristo tinha passado. Por esse mesmo motivo o Noivo, Jesus, procura cortejar Sua noiva, a Igreja, para voltar ao seu primeiro amor. Com a mesma ternura que Jeová mostrou à volúvel e adúltera Israel, o Senhor Jesus apela à sua Igreja para que volte para Ele.

 “Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas” (Ap 2.5).

“Lembra-te, pois, de onde caíste…”

A lembrança é um dom precioso. Olhar para trás pode ser pecaminoso; mas também pode ser sensato. Olhar para trás com os olhos lascivos, como fez a mulher de Ló, para os pecados de Sodoma dos quais temos sido libertos, é atrair desastre. Olhar para trás ansiosamente para os confortos despreocupados do mundo, uma vez que já pusemos a mão no arado, é não ser apto para o reino de Deus. Mas olhar para trás ao longo do caminho em que Deus nos conduziu é o mínimo que a gratidão pode fazer, e olhar para trás para as alturas espirituais que pela graça de Deus já ocupamos é dar o primeiro passo na estrada do arrependimento. Não devemos viver no passado. Mas lembrá-lo e comparar o que somos com o que fomos, é uma experiência salutar e frequentemente perturbadora [6].

Observe que a igreja de Éfeso não está sendo chamada a lembrar o seu pecado. Não está sendo dito para ela lembra-se em que situação ela caiu, mas de onde caiu. Por isso o Senhor desperta a igreja a se lembrar do amor que ela havia abandonado. O amor por Jesus havia sido substituído pelo zelo religioso. Éfeso defendia sua teologia, sua fé, suas convicções e estava até pronta a sofrer e morrer por essas convicções, mas não se deleitava mais em Deus. Não estava mais afeiçoada a Jesus. Estava como os fariseus, zelosos pelas coisas de Deus. Observando com rigor os ritos sagrados. Mas com o coração seco como um deserto.

“… arrepende-te e volta à prática das primeiras obras…”

Arrependimento não é emoção é decisão. É atitude. Não precisa haver choro, basta decisão [7]. Tanto que o termo grego é “metanoeo”, significa “mudança de mente”, que leva a uma mudança de conduta diária, mudar de direção. Isto quer dizer voltar às costas, resoluta e completamente, a todo pecado conhecido. Esse arrependimento proposto por Jesus é para que a igreja pratique as obras que realizava no princípio. É assim que acontece. A igreja nasce, cresce, vai se desenvolvendo e corre o risco de ir fazendo as coisas por fazer, um dia após outro, um domingo após o outro; o culto passa a ser apenas mais um culto, a ceia não passa de outra ceia e logo haverá outra, a pregação é apenas mais uma pregação para que as pessoas gostem ou desgostem. A rotina vai se estabelecendo, assim como os mariscos do mar se fixam nas pedras. Erwin Lutzer diz que quando ele era adolescente, ele se perguntava por que o pastor não mimeografado o sermão e o enviava aos membros pelo correio. Com isso, eles poderiam aprender as verdades bíblicas sem ter o trabalho de ir à igreja. Agora reconheço, diz ele, que pensava assim porque o pastor pregava tão sem entusiasmo, que seu desempenho quase nada acrescentava ao teor da mensagem [8].

Os pastores e líderes de igrejas precisam ser os primeiros a encabeçar a fila de arrependimento. Nossa preocupação e mentalidade institucionais podem nos conduzir a um ministério de manutenção das coisas. Corremos o risco de incorrer em esterilidade ministerial, e as pessoas de nossa comunidade notarão que o nosso ministério não faz mais sentido para elas [9].

“Volta” literalmente traduzido seria “faz”, que dá a ideia de uma atitude definitiva, a fim de que tais obras sejam constantemente praticadas. As “primeiras obras” não são novas e diferentes modalidades de ação; antes, são as mesmas obras, mas motivadas pelo amor original, de tal maneira que até pareçam novas. Seria o amor rejuvenescido [10].

“… se não, venho a ti…”

O “vir contra” do Senhor Jesus será uma consequência da escolha da igreja de Éfeso em continuar na prática do farisaísmo. A opção pertence a igreja. A graça de Deus pode ser acolhida ou reprimida. Não podemos subestimar o caos que a vontade pervertida poderá efetuar nas nossas vidas [11]. Temos um bom exemplo de uma má escolha em Gn 13.1-13 onde nos diz que Abrão e Ló separam-se por causa da briga que estava entre os pastores de Abrão e os pastores de Ló, pois eles estavam comparando as riquezas dos seus patrões. Abrão para evitar que a coisa se agravasse pediu a Ló que se apartasse dele, e lhe disse: “Acaso não está diante de ti toda a terra? Peço-te que te apartes de mim; se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores para a direita, irei para a esquerda” (Gn 13.9). “Se” é uma condicional, que pode tornar-se uma condição de benção ou de maldição. Ló por ser ganancioso escolheu “para si toda a campina do Jordão” armando as suas tendas até Sodoma. A escolha de Ló fez com que ele perdesse todos os seus bens, como também destruiu a sua família, pois Deus destruiu Sodoma e Gomorra. Da mesma forma, estava diante da igreja de Éfeso a escolha de voltar ao primeiro amor ou não, de ter o Senhor Jesus como referencial de benção ou como referencial de castigo. Assim acontece com cada um de nós. As nossas escolhas irão definir benção ou maldição para a nossa vida.

“… e moverei do teu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas”.

A partir de 431 d.C., a cidade entrou em período de declínio, parcialmente a surtos descontrolados de malária. Suas excelentes esculturas foram removidas para outros lugares, principalmente para Constantinopla [12]. Entre 630 e 640 d.C. Éfeso caiu nas mãos dos turcos que retiraram dali os habitantes que ali restaram. A cidade mesmo foi destruída em 1403 d.C. por Timur-Lenk. Hoje seu porto marítimo é um pantanal coberto de juncos e está em ruínas. As ruínas restantes chamam-se hoje “Adscha Soluk” surgido de “Hagios Theologos”, que quer dizer “santo teólogo”, lembrando o apóstolo João, “o teólogo”, que teria sido sepultado lá [13]. No entanto, hoje, a região é escassamente habitada e inteiramente da fé islâmica. Nenhuma igreja tem um lugar seguro e permanente neste mundo. Ela está continuamente em julgamento. Se podemos julgar pela carta que o bispo Inácio de Antioquia escreveu à igreja de Éfeso no princípio do segundo século, ela se reanimou após o apelo de Cristo. Inácio faz um retrato em termos candentes. Mais tarde, porém, ela voltou a decair, e durante a Idade Média seu testemunho cristão desapareceu [14]. Devido a isso o candeeiro foi removido. O inigualável privilégio de testemunhar por Cristo perante o mundo perdeu-se para sempre. Tanto a igreja como a cidade foram destruídas; a única coisa que restou foi um lugar chamado Agasalute, e isso, ironicamente, honra a memória de João e não de Éfeso.

“… caso não te arrependas”.

Se igreja de Éfeso foi chamada ao arrependimento, fica entendido que ela era capaz de fazê-lo. Deus não impede homem algum de arrepender-se. O intuito inteiro da mensagem do evangelho é contrario a esse conceito. Mas como vimos a igreja de Éfeso não foi perseverante e perdeu a oportunidade de ter sua vida restaurada. O candeeiro é feito para brilhar. Se ele não brilha, ele é inútil, desnecessário. A Igreja não tem luz própria. Ela só reflete a luz de Cristo. Mas, se não tem intimidade com Cristo, ela não brilha; se ela não ama, não brilha, porque quem não ama está em trevas.

Pedro na sua primeira carta diz que o juízo começa pela Casa de Deus (1Pe 4.17). Antes de julgar o mundo, Jesus julga a Igreja. A igreja de Éfeso deixou de existir porque ela não soube aproveitar do tempo da visitação de Deus e não se arrependeu do seu pecado. Que isso seja um alerta para nós também nos dias de hoje.

– A primeira observação que o Senhor Jesus faz à igreja de Éfeso é a respeito do seu trabalho (Ap.2:2). A igreja de Éfeso era uma igreja que trabalhava, que executava todas as tarefas que haviam sido determinadas pelo Senhor Jesus. Éfeso era uma igreja que trabalhava, porque o seu pastor era, igualmente, um trabalhador.

– O trabalho é a primeira coisa que o Senhor Jesus verifica em Sua Igreja. Temos nós consciência de que o Senhor Jesus tem observado o que estamos a fazer na Sua obra? Hoje são muitos, numerosos aqueles que, em termos de igrejas locais, apenas assistem aos cultos e, mesmo assim, na sua grande maioria, só os cultos dominicais noturnos. Poucos são os que estão a fazer a obra de Deus, seja evangelizando, seja discipulando, seja ajudando aos necessitados.

– Em minhas visitas a outras igrejas,  vejo uma grande quantidade de crentes “desocupados”, de pessoas ociosas nas igrejas locais, o que explica, aliás, o rápido e perigoso decréscimo que temos visto nas estatísticas a respeito de conversões em nosso país. A primeira coisa que o Senhor Jesus observou em Éfeso foi o trabalho da igreja. Poderia Ele falar o mesmo de nossa igreja local? Poderia Ele falar o mesmo de nós?

– Trabalho, aqui, amados irmãos, não significa acúmulo de atividades. Muitos acham que muito trabalham na obra do Senhor, mas estão apenas a se afadigar com o que não é prioritário, como Marta (Lc.10:40-42), que, distraída em muitos serviços, desprezou “a boa parte”. Nos dias em que vivemos, as igrejas locais estão repletas de eventos e efemérides, mas pouco, ou quase nada, têm trabalhado para o Senhor. Estão estafadas e esgotadas, como Marta, mas nada fizeram pelo reino de Deus.

– O trabalho efetivo, eficiente e eficaz realizado pelo anjo da igreja de Éfeso tinha a ver com a salvação das almas. O trabalho era efetivo, porque real, concreto, havia um esforço para a evangelização dos incrédulos e o aperfeiçoamento dos crentes. O trabalho era eficiente, porque as atividades redundavam em progresso espiritual dos crentes. O trabalho era eficaz, porque as estratégias e meios utilizados davam como resultado o crescimento quantitativo e qualitativo da igreja. Podemos falar o mesmo do que é feito em nossas igrejas locais?

– Quantas conversões temos tido em nossas igrejas locais nos últimos doze meses? Quantos batismos com o Espírito Santo temos tidos em nossas igrejas locais nos últimos doze meses? Quantos crentes, nos últimos doze meses, receberam dons espirituais? Quantos desviados voltaram para o rebanho do Senhor? Quantos crentes foram chamados ao ministério? Quanto contribuímos para a obra missionária? Quanto aumentamos em santificação? O Senhor Jesus via o trabalho da igreja de Éfeso? O que vê nos últimos doze meses em nossas igrejas locais?

– O trabalho leva a pessoa a se desgastar, a suar (Gn.3:19), a se cansar. Jesus Se cansava fisicamente com o trabalho que realizou em Seu ministério terreno (Jo.4:6), quanto mais nós! A Nova Versão Internacional (NVI) traduz a expressão grega “kópos” (κόπος) que é traduzida por “trabalho” na Versão Almeida Revista e Corrigida (ARC), por “trabalho árduo” e a Bíblia de Jerusalém(BJ), que traduz o termo por “fadiga”. Isto nos mostra que o trabalho na obra de Deus traz profundo desgaste, um grande dispêndio de energia, a exigir de cada um dedicação e esforço, que tanto maior visto que não é somente físico, mas, e sobretudo, espiritual.

– Mas, além do trabalho, o Senhor Jesus viu, também, a paciência daquele pastor. A palavra grega é “upomoné” (ύπομονή), cujo significado é de “permanência”, “perseverança”, palavra que é utilizada tanto na NVI quanto na BJ como também na Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB). O desgaste físico e espiritual que o trabalho produz não foi suficiente para fazer com que aquele ministro, e sua igreja, abandonassem a obra do Senhor. Pelo contrário, eles eram perseverantes, não desistiam de fazer a obra do Senhor, apesar dos problemas e das dificuldades existentes.

– Lembremos que Éfeso era uma cidade que vivia da idolatria e da feitiçaria, a ponto de o crescimento do Evangelho ter feito se levantarem segmentos relevantes da sociedade contra a igreja, ainda no tempo do apóstolo Paulo (At.20), circunstâncias que, certamente, não se modificaram. Antes, já que estávamos na época da segunda grande perseguição do Império Romano contra os cristãos, tinham só aumentado.

– Além de termos de trabalhar para o Senhor Jesus, temos de perseverar, de não desistir de continuar servindo a Deus, de continuar levando o Evangelho a toda a criatura. Muitos até começam a trabalhar na obra do Senhor, mas, depois de um determinado período, curto ou longo, pouco importa, abandonam a obra, deixam de fazer o trabalho do Senhor. Em Éfeso, isto não ocorria: todos eram perseverantes. Devemos perseverar até o fim (Mt.24:13)!

– Mas além de trabalhar e perseverar, o anjo da igreja de Éfeso também “não podia sofrer os maus” (Ap.2:1), ou seja, “não pode suportar os malvados” (BJ, TEB) ou “não pode tolerar os homens maus” (NVI). Outra qualidade deste pastor é a sua “intolerância com os maus”.

– O Senhor Jesus elogia o pastor de Éfeso porque ele não “suportava os homens maus”. Embora devamos amar a todos os homens, pois temos o amor de Deus em nossos corações derramado pelo Espírito Santo (Rm.5:5) e este amor é tal que faz com que Deus queira a salvação de todos os homens, indistintamente (I Tm.2:4), não significa, em absoluto, que devamos tolerar o pecado e conviver com ele.

– O pastor de Éfeso era intolerante com os homens maus, ou seja, com aqueles que haviam escolhido o pecado, a iniquidade, a maldade como estilo de vida. Não é por outro motivo que o Senhor, ao ensinar sobre a disciplina da Igreja, disse que se alguém for admoestado para abandonar sua vida pecaminosa e resistir à Igreja em retroceder deva ser tratado como gentio e publicano, ou seja, como alguém que não mais pertence ao rebanho do Senhor (Mt.18:15-17).

– Nos dias em que vivemos, tem avançado uma mentalidade no meio do povo de Deus segundo a qual se deve tolerar tudo e todos na igreja, porque “é o Espírito Santo quem transforma”. Tal mentalidade é de origem satânica e não pode ser acolhida pelos autênticos e genuínos servos do Senhor.

– O Senhor Jesus louva a atitude do anjo da igreja de Éfeso de “não poder suportar os malvados”. Ora, se o Senhor Jesus Se agrada desta atitude, como entender que devamos tolerar em nosso meio pessoas que não estão dispostas a observar a Palavra de Deus e que vivem dissolutamente? É dever do ministro buscar a salvação desta alma, mas, em se observando a impenitência, não há outra solução senão extirpá-la do convívio, para que não venha a prejudicar a salvação dos demais.

– Como servos de Cristo Jesus, devemos amar a todos os pecadores e querer-lhes bem, mas isto, em absoluto, significa tolerar ou ser leniente com o pecado. Amamos todos os pecadores, queremos que se salvem, mas abominamos o pecado que eles cometem e não podemos permitir que o pecado passe a ser o estilo de vida em nosso meio. Não temos qualquer compromisso com o mundo e com o pecado, não há comunhão entre as luz e as trevas.

– Nesta intolerância com os malvados, o Senhor Jesus elogiou, ainda, a conduta do pastor de Éfeso que desmascarou os “falsos apóstolos”, revelando tratar-se de pessoas mentirosas (Ap.2:2). O pastor de Éfeso pôs à prova os que se diziam apóstolos, tendo-os achado mentirosos.

– Outra incumbência fundamental para um ministro é o de preservar a sã doutrina, o de repelir todo e qualquer engano, todo e qualquer ensino doutrinário falso, toda e qualquer heresia. A igreja deve ser conduzida de modo a que o povo tenha amplo e pleno conhecimento da verdade, que é a Palavra de Deus (Jo.17:17), para que possa ser devidamente liberto (Jo.8:32).

– O anjo da igreja de Éfeso era um homem dedicado ao estudo e ao ensino da Palavra de Deus, pois não há outro modo de se pôr à prova os mentirosos senão por intermédio da verdade. Vivemos dias em que muitos mentirosos estão a tirar proveito e vantagem em nosso meio, precisamente porque não há obreiros como o pastor de Éfeso, que ponham à prova tais mentirosos à luz da Palavra do Senhor.

– O anjo da igreja de Éfeso seguia o mesmo rastro dos apóstolos que entendiam que sua função primordial era a oração e o ministério da Palavra (At.6:2,4) e, por se dedicar à Palavra, tanto em seu estudo quanto em seu ensino, pôde impedir que falsos apóstolos prejudicassem o rebanho do Senhor. Temos tido tal atitude de nossos obreiros na atualidade? É lamentável, mas, na imensa maioria dos casos, temos de responder negativamente.

– Por sua expressão, a igreja de Éfeso, que combatia tenazmente contra a idolatria e a feitiçaria, foi atacada pelo inimigo de uma forma ardilosa. Uma vez que o povo salvo naquela cidade não poderia ser seduzida seja pela idolatria, seja pela feitiçaria, de onde haviam saído para servir a Cristo Jesus, o diabo, sutilmente, levou até aqueles crentes “apóstolos”, pessoas que se diziam cristãs, para tentar enganar e iludir o rebanho do Senhor.

– É assim que o inimigo tem atuado nos últimos anos. Sabedor de que não pode mais enganar os crentes com as roupagens explícitas da idolatria ou da feitiçaria, de modo sutil tem levantado “falsos apóstolos”, tem levantado supostos crentes que, no entanto, trazem mensagens tão enganosas quanto as provenientes da idolatria e da feitiçaria.

– Para enfrentarmos estes ensinos falsos, que, infelizmente, estão sendo levados aos nossos púlpitos, é mister que tenhamos pastores como o pastor da igreja de Éfeso que, ante a chegada destes “apóstolos”, pô-los à prova, usando da Palavra de Deus e, numa comparação entre seu viver e sua mensagem e as Escrituras, pôde chegar à conclusão de que eram impostores, de que eram mentirosos, de que eram falsos irmãos.

– Como é importante, amados irmãos, que procedamos da mesma maneira em nossos dias. Como é fundamental que haja, por parte dos crentes, o devido zelo com o estudo, aprendizado e ensino da Bíblia Sagrada, a fim de que possamos, também nós, desmascarar os “falsos apóstolos”, estes “lobos cruéis”, estes “homens que falam perversidades” que se encontram em nosso meio. É para isto que existem as Escolas Bíblicas Dominicais, os cultos de ensino, que, infelizmente, são reuniões das mais desprezadas nas igrejas locais da atualidade, a começar pelos próprios obreiros. Acordemos antes que seja tarde demais!

– O Senhor Jesus reconhecia o esforço despendido por aquele pastor. O Senhor sabia, claramente, que aquele homem havia sofrido, sido paciente e trabalhado incansavelmente pelo nome de Jesus, sem se cansar, ou seja, sem desistir no meio da jornada, pois, como já dissemos, o cansaço, o desgaste, é inevitável (II Co.12:15).

– Éfeso era, portanto, uma igreja trabalhadora, fiel à sã doutrina, cuidadosa e zelosa com a Palavra de Deus e que não se cansava de fazer a obra de Deus. Era este o lado bom visto pelo olhar de chama de fogo de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

IV – O EXAME DO DEFEITO DA IGREJA DE ÉFESO PELO SENHOR JESUS

– No entanto, apesar dos fortes elogios que o Senhor Jesus tece à igreja de Éfeso, como Ele é o justo juiz, não deixou de apontar o defeito, a falha que encontrou naquele ministro e, por conseguinte, naquela igreja: “Tenho, porém, contra ti que deixaste a tua primeira caridade” (Ap.2:4).

– O defeito do anjo da igreja de Éfeso é que todo o seu esforço, todo o seu trabalho, todo o seu desgaste era feito por obrigação, por costume, não por amor. “...A igreja continuava trabalhando, continuava suportando provas e perseguições, mas parece que tudo por mero costume ou obrigação. A igreja havia perdido a sua principal virtude: o amor!...” (OLIVEIRA, José Serafim. op.cit., p.16).

– “Deixar a primeira caridade” ou “deixar o primeiro amor” era o gravíssimo defeito que o Senhor Jesus encontrou naquele pastor e, por conseguinte, naquela igreja. Para bem entendermos esta expressão, é preciso lembrar que o apóstolo Paulo pedia ao Senhor que os efésios pudessem conhecer o amor de Cristo e estar nele arraigados (Ef.3:17-19).

– O Senhor Jesus diz que o pastor de Éfeso havia “deixado” o “primeiro amor”. “Deixar” aqui é a palavra grega é “afiemi” (αφίημι), cujos significado é o de “abandonar” (que é a palavra utilizada na Versão Almeida Revista e Atualizada – ARA), o mesmo sentido de “repudiar” uma mulher, ou seja, o de não mais conviver, de tomar uma resolução de não mais compartilhar deste sentimento.

– Aquela igreja tinha entrado em um automatismo, em uma rotina que fazia com que tudo o que estava sendo realizado na obra do Senhor não fosse por causa do amor a Deus, por causa daquela atração inicial que havia levado aqueles crentes a se arrepender dos seus pecados e crer que Jesus era o Salvador, um sentimento do qual já estavam divorciados, que não mais levavam em conta na hora de realizar as suas tarefas.

– Notemos que o Senhor Jesus não disse que o pastor de Éfeso O havia abandonado. O abandono era só do “primeiro amor”, ou seja, ainda não tínhamos um desvio espiritual, mas se dava o primeiro passo para este desvio, visto que o abandono do “primeiro amor” significava, precisamente, o início do distanciamento em relação à pessoa do Senhor Jesus. Este “primeiro amor” é aquele lado atrativo do amor de Deus que nos aproxima do Senhor Jesus e nos leva à salvação.

– Sabemos todos que a palavra “amor” é tradução de quatro palavras gregas, a saber:

a) “eros” (ερως) – o amor passional, o desejo ardente, o amor instintivo. Presente na Bíblia apenas na versão grega (Septuaginta) em Pv.7:18 e 30:16.
b) “philia” (φιλια) – o amor amizade, o amor condicional, correspondido.
c) “storge” (στοργη) – o amor fraternal, familiar, decorrente das necessidades. Presente na Bíblia apenas em uma palavra composta em Rm.12:10
d) “agape” (αγαπη) – o amor divino, incondicional.

– Pelo que podemos verificar, quando falamos em amor com relação ao Senhor Jesus, estamos a falar do amor “agape”, pois o amor que temos em relação a Cristo é o amor de Deus que foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm.5:5).

– No entanto, este amor “agape” não deixa de ter um quê de “eros”, de desejo ardente, de atração. Afinal de contas, o Senhor Jesus disse que a todos atrairia a Si (Os.2:14; Jo.12:32), atração esta que não é outra a não ser o amor que revelou e comprovou na Sua morte vicária na cruz do Calvário (Rm.5:8; Ct.2:4). O gesto de Jesus de dar a Sua vida pelo homem promove, naqueles que creem, uma devoção, uma atração à pessoa de Cristo Jesus, que não deixa de ser um quê de “eros” que nos levará ao “agape”.

OBS: Esta perspectiva de um lado atrativo no amor de Deus que nos é derramado no coração foi bem desenvolvido pelo atual chefe da Igreja Romana, na sua primeira encíclica, “Deus caritas est”, dedicada à análise do amor de Deus, em trecho que vale a pena transcrever:

Ao amor entre homem e mulher, que não nasce da inteligência e da vontade mas de certa forma impõe-se ao ser humano, a Grécia antiga deu o nome deeros. Diga-se desde já que o Antigo Testamento grego usa só duas vezes a palavraeros, enquanto o Novo Testamento nunca a usa: das três palavras gregas relacionadas com o amor —eros, philia(amor de amizade) e agape— os escritos neo-testamentários privilegiam a última, que, na linguagem grega, era quase posta de lado. Quanto ao amor de amizade (philia), este é retomado com um significado mais profundo noEvangelho de João para exprimir a relação entre Jesus e os seus discípulos. A marginalização da palavraeros, juntamente com a nova visão do amor que se exprime através da palavraagape, denota sem dúvida, na novidade do cristianismo, algo de essencial e próprio relativamente à compreensão do amor. Na crítica ao cristianismo que se foi desenvolvendo com radicalismo crescente a partir do iluminismo, esta novidade foi avaliada de forma absolutamente negativa. Segundo Friedrich Nietzsche, o cristianismo teria dado veneno a beber ao eros, que, embora não tivesse morrido, daí teria recebido o impulso para degenerar em vício. [1] Este filósofo alemão exprimia assim uma sensação muito generalizada: com os seus mandamentos e proibições, a Igreja não nos torna porventura amarga a coisa mais bela da vida? Porventura não assinala ela proibições precisamente onde a alegria, preparada para nós pelo Criador, nos oferece uma felicidade que nos faz pressentir algo do Divino?
Mas, será mesmo assim? O cristianismo destruiu verdadeiramente oeros? Vejamos o mundo pré-cristão. Os gregos — aliás de forma análoga a outras culturas — viram noerossobretudo o inebriamento, a subjugação da razão por parte duma « loucura divina » que arranca o homem das limitações da sua existência e, neste estado de transtorno por uma força divina, faz-lhe experimentar a mais alta beatitude. Deste modo, todas as outras forças quer no céu quer na terra resultam de importância secundária: « Omnia vincit amor— o amor tudo vence », afirma Virgílio nas Bucólicas e acrescenta: « et nos cedamus amori — rendamo-nos também nós ao amor ». [2] Nas religiões, esta posição traduziu-se nos cultos da fertilidade, aos quais pertence a prostituição « sagrada » que prosperava em muitos templos. Oeros foi, pois, celebrado como força divina, como comunhão com o Divino.

A esta forma de religião, que contrasta como uma fortíssima tentação com a fé no único Deus, o Antigo Testamento opôs-se com a maior firmeza, combatendo-a como perversão da religiosidade. Ao fazê-lo, porém, não rejeitou de modo algum oeros enquanto tal, mas declarou guerra à sua subversão devastadora, porque a falsa divinização do eros, como aí se verifica, priva-o da sua dignidade, desumaniza-o. De facto, no templo, as prostitutas, que devem dar o inebriamento do Divino, não são tratadas como seres humanos e pessoas, mas servem apenas como instrumentos para suscitar a « loucura divina »: na realidade, não são deusas, mas pessoas humanas de quem se abusa. Por isso, o eros inebriante e descontrolado não é subida, « êxtase » até ao Divino, mas queda, degradação do homem. Fica assim claro que oeros necessita de disciplina, de purificação para dar ao homem, não o prazer de um instante, mas uma certa amostra do vértice da existência, daquela beatitude para que tende todo o nosso ser.

Dois dados resultam claramente desta rápida visão sobre a concepção do erosna história e na actualidade. O primeiro é que entre o amor e o Divino existe qualquer relação: o amor promete infinito, eternidade — uma realidade maior e totalmente diferente do dia-a-dia da nossa existência. E o segundo é que o caminho para tal meta não consiste em deixar-se simplesmente subjugar pelo instinto. São necessárias purificações e amadurecimentos, que passam também pela estrada da renúncia. Isto não é rejeição doeros, não é o seu « envenenamento », mas a cura em ordem à sua verdadeira grandeza.

Isto depende primariamente da constituição do ser humano, que é composto de corpo e alma. O homem torna-se realmente ele mesmo, quando corpo e alma se encontram em íntima unidade; o desafio doeros pode considerar-se verdadeiramente superado, quando se consegue esta unificação. Se o homem aspira a ser somente espírito e quer rejeitar a carne como uma herança apenas animalesca, então espírito e corpo perdem a sua dignidade. E se ele, por outro lado, renega o espírito e consequentemente considera a matéria, o corpo, como realidade exclusiva, perde igualmente a sua grandeza. O epicurista Gassendi, gracejando, cumprimentava Descartes com a saudação: « Ó Alma! ». E Descartes replicava dizendo: « Ó Carne! ». [3] Mas, nem o espírito ama sozinho, nem o corpo: é o homem, a pessoa, que ama como criatura unitária, de que fazem parte o corpo e a alma. Somente quando ambos se fundem verdadeiramente numa unidade, é que o homem se torna plenamente ele próprio. Só deste modo é que o amor — oeros — pode amadurecer até à sua verdadeira grandeza.

Hoje não é raro ouvir censurar o cristianismo do passado por ter sido adversário da corporeidade; a realidade é que sempre houve tendências neste sentido. Mas o modo de exaltar o corpo, a que assistimos hoje, é enganador. O eros degradado a puro « sexo » torna-se mercadoria, torna-se simplesmente uma « coisa » que se pode comprar e vender; antes, o próprio homem torna-se mercadoria. Na realidade, para o homem, isto não constitui propriamente uma grande afirmação do seu corpo. Pelo contrário, agora considera o corpo e a sexualidade como a parte meramente material de si mesmo a usar e explorar com proveito. Uma parte, aliás, que ele não vê como um âmbito da sua liberdade, mas antes como algo que, a seu modo, procura tornar simultaneamente agradável e inócuo. Na verdade, encontramo-nos diante duma degradação do corpo humano, que deixa de estar integrado no conjunto da liberdade da nossa existência, deixa de ser expressão viva da totalidade do nosso ser, acabando como que relegado para o campo puramente biológico. A aparente exaltação do corpo pode bem depressa converter-se em ódio à corporeidade. Ao contrário, a fé cristã sempre considerou o homem como um ser uni-dual, em que espírito e matéria se compenetram mutuamente, experimentando ambos precisamente desta forma uma nova nobreza. Sim, o eros quer-nos elevar « em êxtase » para o Divino, conduzir-nos para além de nós próprios, mas por isso mesmo requer um caminho de ascese, renúncias, purificações e saneamentos.

Concretamente, como se deve configurar este caminho de ascese e purificação? Como deve ser vivido o amor, para que se realize plenamente a sua promessa humana e divina? Uma primeira indicação importante, podemos encontrá-la noCântico dos Cânticos, um dos livros do Antigo Testamento bem conhecido dos místicos. Segundo a interpretação hoje predominante, as poesias contidas neste livro são originalmente cânticos de amor, talvez previstos para uma festa israelita de núpcias, na qual deviam exaltar o amor conjugal. Neste contexto, é muito elucidativo o facto de, ao longo do livro, se encontrarem duas palavras distintas para designar o « amor ». Primeiro, aparece a palavra « dodim», um plural que exprime o amor ainda inseguro, numa situação de procura indeterminada. Depois, esta palavra é substituída por « ahabà», que, na versão grega do Antigo Testamento, é traduzida pelo termo de som semelhante « agape », que se tornou, como vimos, o termo característico para a concepção bíblica do amor. Em contraposição ao amor indeterminado e ainda em fase de procura, este vocábulo exprime a experiência do amor que agora se torna verdadeiramente descoberta do outro, superando assim o carácter egoísta que antes claramente prevalecia. Agora o amor torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não se busca a si próprio, não busca a imersão no inebriamento da felicidade; procura, ao invés, o bem do amado: torna-se renúncia, está disposto ao sacrifício, antes procura-o.

Faz parte da evolução do amor para níveis mais altos, para as suas íntimas purificações, que ele procure agora o carácter definitivo, e isto num duplo sentido: no sentido da exclusividade — « apenas esta única pessoa » — e no sentido de ser « para sempre ». O amor compreende a totalidade da existência em toda a sua dimensão, inclusive a temporal. Nem poderia ser de outro modo, porque a sua promessa visa o definitivo: o amor visa a eternidade. Sim, o amor é « êxtase »; êxtase, não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus: « Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á » (Lc 17, 33) — disse Jesus; afirmação esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16, 25;Mc 8, 35;Lc 9, 24;Jo 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O conduz, através da cruz, à ressurreição: o caminho do grão de trigo que cai na terra e morre e assim dá muito fruto. Partindo do centro do seu sacrifício pessoal e do amor que aí alcança a sua plenitude, Ele, com tais palavras, descreve também a essência do amor e da existência humana em geral.

Inicialmente mais filosóficas, as nossas reflexões sobre a essência do amor conduziram-nos agora, pela sua dinâmica interior, à fé bíblica. Ao princípio, colocou-se o problema de saber se os vários, ou melhor opostos, significados da palavra amor subentenderiam no fundo uma certa unidade entre eles ou se deveriam ficar desligados um ao lado do outro. Mas, acima de tudo, surgiu a questão seguinte: se a mensagem sobre o amor, que nos é anunciada pela Bíblia e pela Tradição da Igreja, teria algo a ver com a experiência humana comum do amor ou se, pelo contrário, se opusesse a ela. A este respeito, fomos dar com duas palavras fundamentais:eros como termo para significar o amor « mundano » eagapecomo expressão do amor fundado sobre a fé e por ela plasmado. As duas concepções aparecem frequentemente contrapostas como amor « ascendente » e amor « descendente ». Existem outras classificações afins como, por exemplo, a distinção entre amor possessivo e amor oblativo (amor concupiscentiæ–amor benevolentiæ), à qual, às vezes, se acrescenta ainda o amor que procura o próprio interesse.

No debate filosófico e teológico, estas distinções foram muitas vezes radicalizadas até ao ponto de as colocar em contraposição: tipicamente cristão seria o amor descendente, oblativo, ou seja, a agape; ao invés, a cultura não cristã, especialmente a grega, caracterizar-se-ia pelo amor ascendente, ambicioso e possessivo, ou seja, peloeros. Se se quisesse levar ao extremo esta antítese, a essência do cristianismo terminaria desarticulada das relações básicas e vitais da existência humana e constituiria um mundo independente, considerado talvez admirável, mas decididamente separado do conjunto da existência humana. Na realidade,eros eagape — amor ascendente e amor descendente — nunca se deixam separar completamente um do outro. Quanto mais os dois encontrarem a justa unidade, embora em distintas dimensões, na única realidade do amor, tanto mais se realiza a verdadeira natureza do amor em geral. Embora oeros seja inicialmente sobretudo ambicioso, ascendente — fascinação pela grande promessa de felicidade — depois, à medida que se aproxima do outro, far-se-á cada vez menos perguntas sobre si próprio, procurará sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-á cada vez mais dele, doar-se-á e desejará « existir para » o outro. Assim se insere nele o momento da agape; caso contrário, o eros decai e perde mesmo a sua própria natureza. Por outro lado, o homem também não pode viver exclusivamente no amor oblativo, descendente. Não pode limitar-se sempre a dar, deve também receber. Quem quer dar amor, deve ele mesmo recebê-lo em dom. Certamente, o homem pode — como nos diz o Senhor — tornar-se uma fonte donde correm rios de água viva (cf. Jo 7, 37-38); mas, para se tornar semelhante fonte, deve ele mesmo beber incessantemente da fonte primeira e originária que é Jesus Cristo, de cujo coração trespassado brota o amor de Deus (cf. Jo 19, 34).

Os Padres viram simbolizada de várias maneiras, na narração da escada de Jacob, esta conexão indivisível entre subida e descida, entre oeros que procura Deus e aagape que transmite o dom recebido. Naquele texto bíblico refere-se que o patriarca Jacob num sonho viu, assente na pedra que lhe servia de travesseiro, uma escada que chegava até ao céu, pela qual subiam e desciam os anjos de Deus (cf. Gn 28, 12;Jo 1, 51). Particularmente interessante é a interpretação que dá o Papa Gregório Magno desta visão, na suaRegra pastoral. O bom pastor — diz ele — deve estar radicado na contemplação. De facto, só assim lhe será possível acolher de tal modo no seu íntimo as necessidades dos outros, que estas se tornem suas: « per pietatis viscera in se infirmitatem cæterorum transferat ». [4] Neste contexto, São Gregório alude a São Paulo que foi arrebatado para as alturas até aos maiores mistérios de Deus e precisamente desta forma, quando desce, é capaz de fazer-se tudo para todos (cf. 2 Cor 12, 2-4;1 Cor 9, 22). Além disso, indica o exemplo de Moisés que repetidamente entra na tenda sagrada, permanecendo em diálogo com Deus para poder assim, a partir de Deus, estar à disposição do seu povo. « Dentro [da tenda] arrebatado até às alturas mediante a contemplação, fora [da tenda] deixa-se encalçar pelo peso dos que sofrem: Intus in contemplationem rapitur, foris infirmantium negotiis urgetur ». [5]

Encontramos, assim, uma primeira resposta, ainda bastante genérica, para as duas questões atrás expostas: no fundo, o « amor » é uma única realidade, embora com distintas dimensões; caso a caso, pode uma ou outra dimensão sobressair mais. Mas, quando as duas dimensões se separam completamente uma da outra, surge uma caricatura ou, de qualquer modo, uma forma redutiva do amor. E vimos sinteticamente também que a fé bíblica não constrói um mundo paralelo ou um mundo contraposto àquele fenómeno humano originário que é o amor, mas aceita o homem por inteiro intervindo na sua busca de amor para purificá-la, desvendando-lhe ao mesmo tempo novas dimensões. Esta novidade da fé bíblica manifesta-se sobretudo em dois pontos que merecem ser sublinhados: a imagem de Deus e a imagem do homem...” (BENTO XVI. Deus caritas est. Disponível em:

http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est_po.html Acesso em 12 fev. 2011.

– O amor de Deus Se manifesta ao homem através de uma atração, de um desejo ardente do Senhor de nos salvar. Há um lado atrativo no amor divino e a resposta a esta atração de Deus a nós é o “primeiro amor” de que nos fala o Senhor nesta carta à igreja de Éfeso.

– John Wesley (1703-1791), fundador da Igreja Metodista e um dos principais responsáveis por um dos maiores avivamentos da história da Igreja, dizia que este “primeiro amor” é “o primeiro amor carinhoso em seu vigor e ardor”. É a resposta do salvo à atração promovida pelo amor de Deus que o levou ao arrependimento dos pecados e à fé em Cristo Jesus.

– Entre os pagãos, o “eros” era identificado como uma “loucura divina”, um “êxtase” que levava o homem a um “contato com a divindade”. Esta ideia não é de todo desarrazoada, visto que revela que nosso relacionamento com Deus tem de transpor os limites da razão, da racionalidade, é algo que tem de se dar de modo “misterioso”. É por isso que o apóstolo Paulo, falando aos efésios, diz que somente habitando Cristo pela fé em nossos corações e estando arraigados e fundados em amor, poderemos compreender perfeitamente a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Cristo (Ef.3:17,18).

– Este “primeiro amor”, que é a resposta a esta atração a Deus, é que nos permite entrar em contato com o Senhor Jesus, que nos permite amá-l’O, recebê-l’O como Nosso Senhor e Salvador. Por isso, Paulo diz que o que nos leva a Cristo é a “loucura da pregação” (I Co.1:21).

– Ao contrário dos pagãos, porém, esta “loucura divina” não nos vem por intermédio das paixões carnais, da sensualidade, da superação de limites na satisfação de nossos instintos, mas, sim, pela comunhão que se dá entre o nosso espírito e o Espírito de Deus, entre nosso homem interior e o Senhor.

– Para que nos aproximemos de Deus, o que para nós é bom (Sl.73:28), temos de ser atraídos por Ele e de nos mantermos por Ele atraídos e esta atração ao Senhor nada mais é que o “primeiro amor” de que fala o Senhor Jesus aqui. É amar a Jesus como amamos no princípio da nossa fé, para aqui nos utilizarmos da expressão usada pela Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH).

– A igreja em Éfeso começou com este primeiro amor. Ao vermos o início da obra do Senhor Jesus naquela cidade, como nos descreve o livro de Atos, verificamos a presença deste “primeiro amor”.

– Quando os crentes de Éfeso tinham o primeiro amor, tinham interesse em saber quem era o Espírito Santo e, por isso, foram batizados nas águas e no Espírito Santo como também receberam dons espirituais (At.19:1-7). Agora, não havia mais este interesse, não havia mais este ardor. Até parece que se trata das Assembleias de Deus em seu centenário...

– Quando os crentes de Éfeso tinham o primeiro amor, acompanharam Paulo para a escola de Tirano depois que os judeus da sinagoga endureceram seus corações, rejeitando o Evangelho (At.19:8,9). Agora, não havia mais este interesse e, certamente, somente compareciam às reuniões previamente designadas, tal como os “crentes domingueiros” da atualidade.

– Quando os crentes de Éfeso tinham o primeiro amor, não cessavam de cultuar a Deus, fazendo-o por ininterruptos dois anos (At.19:10). Agora, faziam apenas o que lhes era determinado, nada além da primeira milha, a chamada “milha do dever” (Mt.5:41), como se estivessem a fazer um favor para Deus e a realidade não fosse exatamente o contrário.

– Quando os crentes de Éfeso tinham o primeiro amor, tinham interesse em que as pessoas fossem alcançadas pelo poder de Deus, tendo bom testemunho para tanto (At.19:11-17). Agora, limitavam-se a cumprir os seus deveres eclesiásticos, sem qualquer interesse em se sobressair como cristãos na cidade, máxime em momento de perseguição como o que estavam vivendo sob o reinado do imperador romano Domiciano.

– Quando os crentes de Éfeso tinham o primeiro amor, havia confissão e abandono dos pecados, inclusive do envolvimento com a feitiçaria e o paganismo em geral (At.19:18,19). Agora, apenas cumpriam suas obrigações eclesiásticas, buscando não se mostrar muito diante de um ambiente e clima hostil à fé, ainda mais que se estava na capital de uma província romana, onde as ordens imperiais chegavam por primeiro.

– Quando os crentes de Éfeso tinham o primeiro amor, havia prevalência da Palavra de Deus (At.19:20). Os efésios ainda primavam pela Palavra de Deus, como nos dá conta o Senhor Jesus no exame das qualidades do anjo da igreja efésia, mas a ortodoxia doutrinária estava se deixando dominar por um racionalismo, já não era acompanhada de um ardor.

– Esta falta do primeiro amor tem sido uma característica encontradiça em muitas igrejas locais na atualidade. São igrejas que estão em “piloto automático”, que cumprem uma rotina no serviço a Deus, mas onde já não se sente mais atração pelo Senhor Jesus, onde não mais interesse em buscá-l’O e invocá-l’O. Tudo é feito mecanicamente e um comportamento desta natureza é assaz perigoso, porquanto leva ao “esfriamento do amor”, algo que, com a multiplicação da iniquidade de nossos dias, junta “o inútil com o desagradável”, criando um ambiente extremamente propício para a perda da salvação.

– Quando deixamos de sentir o primeiro amor, quando deixamos de ter a atração pelas coisas de Deus, inevitavelmente seremos atraídos pelas coisas do mundo e, quando passamos a amar o mundo, o próximo passo depois de deixarmos o primeiro amor, acabaremos por perder o amor do Pai, pois quem ama o mundo e o que no mundo há, não tem mais o amor de Deus em seu coração (I Jo.2:15). “Quando uma pedra começa a cair, ela cai com uma velocidade crescente; quando uma alma começa a perder seu primeiro amor, ela o deixa mais e mais, mais e mais, até que, por fim, ela cai terrivelmente” (Charles Spurgeon).

OBS: “...A falta do primeiro amor poderia ser um extremismo nas aplicações das disciplinas, pois não toleravam o mal(...). Poderia estar vinculada a este pensamento, a falta de recursos para fazer a obra de missão e evangelismo(...). Esta falta de amor poderia ser o atendimento social aos necessitados. Quando estavam no primeiro amor era prioridade socorrer aos carentes, (...) mas este primeiro amor esfriou e caíram desta graça...” (SILVA, Osmar José da. op.cit., p.41).

– A perda do amor de Deus em nossos corações é a morte espiritual, pois, quando deixamos o primeiro amor e partimos rumo à atração pelo mundo, acabamos atraídos e engodados pela nossa própria concupiscência, ou seja, pela nossa natureza pecaminosa e o resultado disto é a morte como consequência do pecado (Tg.1:14,15).

V – A RECEITA DE JESUS PARA A IGREJA DE ÉFESO

– O Senhor Jesus, porém, ao apontar a falha da igreja de Éfeso, não fica apenas no diagnóstico, mas, como “Médico dos médicos”, também ministra a receita que soluciona o problema. Jesus, amados irmãos, não é como alguns irmãos que são muito rápidos na diagnose, mas que não trazem qualquer solução para o problema espiritual de alguém. Só sabem apontar a doença e predizer a morte, nada mais, mas Jesus é a vida, a luz dos homens (Jo.1:4), iluminando nossos passos e nos dando condição de sermos restaurados para vivermos eternamente com Ele nas mansões celestiais.

– Após ter dado o diagnóstico, o Senhor diz ao anjo da igreja de Éfeso que se lembrasse de onde caíra e que voltasse a praticar as primeiras obras. Não tinha ocorrido ainda a morte espiritual, mas, tão somente, uma queda, um deslize. Não se perdera, ainda, o amor de Deus, mas tão somente o “primeiro amor”, algo muito importante, essencial, mas que ainda não significava o rompimento definitivo com o Senhor.

– O caminho preconizado pelo Senhor Jesus era o do arrependimento, o da mudança de mentalidade. O pastor de Éfeso deveria verificar onde havia caído, ou seja, a partir de que atitude, de que gesto ele havia deixado o primeiro amor e, então, a partir de então, deveria voltar a praticar as primeiras obras, ou seja, deveria retornar a fazer tudo com amor, com ardor, com vontade de aproximação contínua ao Senhor Jesus.

– Não existe outro modo de nos restaurarmos espiritualmente senão pelo caminho do arrependimento, do retorno ao local de nossa queda para que, ali, recomeçamos tudo. Muitos tentam se enganar, na atualidade, querendo “consertar” sua vida espiritual a partir de um dado instante, sem que retorne onde tudo começou a desandar. Quantos que querem voltar para Cristo Jesus a partir de um instante sem consertar as coisas que ficaram pendentes quando do desvio espiritual? Não há outro remédio. O Senhor Jesus é enfático: “lembra-te pois donde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras”.

– Não era caso de se criar “novidades”, de se descobrir “novas estratégias”, “novas formas de servir a Deus”, como se faz hoje em dia, mas, sim, de “praticar as primeiras obras”, de voltar a se fazer o que se fazia quando o primeiro amor estava presente. Estamos dispostos a retornar aos primeiros dias de fervor espiritual do movimento pentecostal em nosso país?

– Caso não houvesse este arrependimento, o Senhor Jesus, que é a verdade (Jo.14:6), anuncia que haveria a morte espiritual. Se não houvesse arrependimento, o Senhor viria até o pastor de Éfeso e tiraria do seu lugar o castiçal dele, ou seja, o pastor perderia a igreja. Jesus é misericordioso, é bom, dava a solução para aquele ministro mas, caso ele não se arrependesse, ele perderia a igreja, ele perderia o seu ministério (Ap.2:5).

– Quantos ministros que não temos visto o Senhor retirar as igrejas que lhes havia dado? Notemos que não se está aqui a falar de perda de título, nem tampouco de perda de função, mas da perda da igreja. Quantos ministros que caíram, não se arrependeram e hoje não têm mais igrejas a dirigir, mas tão somente organizações religiosas frias e sem a presença do Senhor... Que Deus nos guarde!

– Mesmo diante desta solene advertência, o Senhor Jesus mostra toda a Sua bondade e mansidão, ao tecer mais um elogio para aquele ministro, ao dizer que ele aborrecia as obras dos nicolaítas, obras que o Senhor Jesus também aborrecia (Ap.2:6).

– “...Não podemos determinar com certeza serem estes ‘nicolaítas’ discípulos de ‘Nicolau’, o sétimo diácono (At.6:5). O texto divino escrito por São Lucas, afirma ser Nicolau um homem de ‘boa reputação, cheio do Espírito Santo e de sabedoria’ (At.6:3). O apóstolo João conhecia bem pessoalmente a Nicolau e, sem dúvida, no dia de sua separação para o diaconato (...) pôs as mãos sobre ele (At.6:2,6), é esta razão, além de muitas outras, motivo para não infligirmos na conduta deste servo de Deus aquilo que ele não foi(...). Tudo indica que ‘nicolaítas’ refere-se ao começo da noção de uma ordem sacerdotal na igreja: ‘clero’ e ‘leigos’. Tudos nos faz crer que esta seita denominada de ‘nicolaítas’ faz parte de um ‘sistema’ gnóstico existente naqueles dias...” (SILVA, Severino Pedro da. Apocalipse versículo por versículo. 3.ed., p.33).

– Os nicolaítas eram pessoas que passavam a defender a tese de que “o corpo não prestava”, somente o homem interior (alma e espírito), como defendiam os gnósticos e, que, por isso, não havia nada de errado de usar o corpo para a prática de ações consideradas pecaminosas, como a prostituição, a glutonaria, a bebedice, pois o corpo não tinha nada de bom em si e não poderia prejudicar a alma. “...As obras dos nicolaitas eram heresias ensinadas por hereges impuros, que condenavam o matrimônio e liberavam o sexo desordenado; promoviam discórdia e divisão entre os irmãos, lançando-os contra o pastor da igreja...” (SILVA, Osmar José da. Reflexões filosóficas de eternidade a eternidade, v.7, p.41).

– Na atualidade, temos muitos “nicolaítas” introduzidos no meio do povo de Deus, aqueles que dizem que “Deus só quer o coração” e que não importa o que se faça com o corpo. Jesus, porém, aborrece as obras de quem assim pensa e age!

– Para sermos restaurados em nossa vida espiritual, precisamos aborrecer as obras dos nicolaítas, ou seja, não permitir que nossos corpos sejam instrumentos de iniquidade (Rm.6:12-18). É com grande preocupação que temos observado que, paulatinamente, tem ingressado em nossas igrejas locais uma mentalidade nicolaíta que tem levado muitos que cristãos se dizem ser a serem totalmente descuidados com o seu corpo que passa a ser objeto de todo tipo de profanação, inclusive com uso de vestimentas indecorosas, de enfeites e adereços totalmente incompatíveis com a santificação como o uso de joias, penteados, piercings e tatuagens. Aborreçamos as obras dos nicolaítas, amados irmãos!

– Neste ponto, aliás, tem-se como oportuno verificar o que representa a igreja de Éfeso dentro da perspectiva futurista do livro do Apocalipse. Esta é a igreja onde estava o apóstolo João, a igreja que se localizava mais próxima de Patmos. Tem-se, pois, que estamos diante do período imediatamente posterior aos tempos apostólicos, uma igreja que ainda era “desejável”, que não permitia que houvesse a separação entre “clero” e “leigos”, uma igreja que continuava a evangelizar, mas que, infelizmente, já tinha perdido o ardor dos dias dos apóstolos, que caminhava rumo a um perigoso esfriamento espiritual, que só não seria sentido no período imediatamente seguinte por causa das perseguições permitidas pelo Senhor, com a finalidade precípua de manter a evangelização do mundo conhecido de então.

VI – A PROMESSA DE VITÓRIA FEITA A IGREJA DE ÉFESO

– Após ter apontado a solução para que a igreja de Éfeso fosse restaurada, o Senhor Jesus, mostrando que vale a pena servi-l’O e que todos os que perseverarem até o fim além da salvação, serão devidamente recompensados, manda que a igreja ouvisse o que o Espírito Santo estava a dizer, prova de que, embora destinada ao anjo da igreja, a mensagem era para todos os crentes efésios.

– Jesus faz uma promessa aos vencedores, aos crentes que perseverassem servindo a Ele até o fim, aos crentes que retornassem ao primeiro amor e praticassem as primeiras obras, atendendo à admoestação do Senhor. “Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus” (Ap.2:7).

– O Senhor Jesus mostra-nos, com esta promessa, que a salvação significa a retomada da comunhão que se tinha entre Deus e o homem antes do pecado, quando o acesso à árvore da vida era pleno (Gn.2:9; 3:22-24), ao mesmo tempo em que mostra que está a dar a Sua revelação final aos homens, na medida em que temos aqui um dentre tantos outros episódios no livro do Apocalipse em que se conclui o que se iniciou no livro do Gênesis.

– Quem perseverar até o fim, que resistir ao pecado e ao mundo, comerá da árvore da vida, voltará a ter pleno acesso a esta árvore, ou seja, terá comunhão com o Senhor e uma comunhão que não poderá jamais ser quebrada. A vida eterna é o que nos dá o Senhor Jesus e a salvação tem como finalidade nos levar para o céu, para “o paraíso de Deus”, onde agora está a árvore da vida e não mais no Éden, que ficava na Terra.

– A salvação na pessoa bendita de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo levar-nos-á para novos céus e nova terra, onde habita a justiça (II Pe.3:13, motivo pelo qual não temos que nos preocupar com as coisas desta vida, não temos que estar focados única e exclusivamente nas coisas passageiras desta Terra que há de perecer (II Pr.3:11).

– Somente quem voltar ao primeiro amor, somente quem se sentir atraído por Cristo Jesus e por estes novos céus e terra poderá alcançar esta recompensa, poderá vencer o mal. Muitos que cristãos se dizem ser, na atualidade, estão total e completamente alheios desta realidade, não almejam comer da árvore da vida, mas querem desfrutar dos prazeres e deleites proposta pela sua natureza pecaminosa neste mundo. Amam este mundo e, por isso, não só não se sentem atraídos pelas coisas espirituais, como não têm sequer mais o amor de Deus em seus corações.

– Qual é a nossa situação? Temos desejado o céu? Temos querido comer da árvore da vida no meio do paraíso de Deus, ou estamos tão atraídos pelas coisas deste mundo que estamos totalmente indiferentes a esta promessa de Jesus? Tomemos cuidado, amados irmãos, pois, por mais operosos que sejamos na obra de Deus, se não temos esta atração pelo céu, brevemente estaremos mortos. Cuidado!

– Que nosso coração não deixe o primeiro amor para que, naquele dia, estejamos prontos a comer da árvore da vida no meio do paraíso de Deus.


Notas

1 Champlin, Ph. D., R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo. Ed. Candeia, São Paulo, SP, 10º reimpressão, 1998: p. 389.

2 Barro, Jorge Henrique. Uma Igreja Sem Propósitos. Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2004: p. 25.

3 Stott, John R. W. O que Cristo pensa da Igreja. Ed. United Press, Campinas, SP, 1999: p. 27.

4 Stott, John R. W. O que Cristo pensa da Igreja. Ed. United Press, Campinas, SP, 1999: p. 22.

5 Ibid, p. 22

6 Ibid, p. 24

7 Lopes, Hernandes Dias. Apocalipse, o futuro chegou. Ed. Hagnos, São Paulo, SP, 2005: p. 71.

8 Lutzer, Erwin. De pastor para pastor. Ed. Vida, São Paulo, SP, 2001: p. 42.

9 Barro, Jorge Henrique. Uma Igreja Sem Propósitos. Ed. Mundo Cristão, São Paulo, SP, 2004: p. 27.

10 Champlin, Ph. D., R. N. O Novo Testamento Interpretado, versículo por versículo. Ed. Candeia, São Paulo, SP, 10º reimpressão, 1998: p. 391.

11 Ibid, p. 391.

12 Ibid, p. 391.

13 Malgo, Wim. Apocalipse de Jesus Cristo, Vol. 1, cap. 1-5, Ed. Chamada da Meia- Noite, Porto Alegre, RS, 1999: p. 35.

14 Stott, John R. W. O que Cristo pensa da Igreja. Ed. United Press, Campinas, SP, 1999: p. 27.