Há diversas parábolas na Bíblia, usadas para nos exemplificar alguns conceitos, que de outra forma, teríamos dificuldade de compreender. Jesus, ao vir a este mundo tem um propósito de nos mostrar o PAI. Jesus é a revelação do caráter, do pensamento e da ação do Pai para os povos e nações. Uma das maiores características de Deus Pai, é que ele é cheio de terna misericórida. O Senhor tem prazer em exercer sua misericórida (Deus não me dando o que eu mereço), como expressa em Miquéias 6.18: "… O Senhor não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia”. No evangelho de Lucaas há 22 versículos que nos revelam que Deus é compassivo e misericordioso Lucas. Dentre eles, os que mais eu gosto, são os registrados em Lucas 15.11ss conhecida como a parábola do Filho Pródigo, que envolve três personagens importantes: o filho mais velho, o filho mais novo e o Pai Misericordioso.
Embora a parábola seja destinada prioritariamente aos fariseus e escribas (homens que se escandalizavam com o jeito de ser e de agir de Jesus) com o objetivo de despertar conversão, ao fazê-los refletir que eles são mais pecadores que os publicanos. Jesus diz, indiretamente, a eles: Sejam também vocês compassivo misericordiosos, assim como o Pai! Jesus ensina compaixão e misericórdia aos não compassivo e misericordiosos.
Na parábola, “o irmão mais novo representa todos os marginalizados e excluídos da sociedade “justa, limpa, sadia e higiênica”; o filho mais velho, carrancudo, representa os escribas, fariseus, ..., enfim todos os pretensos “justos e impecáveis” . São pessoas limpas por fora, mas egocêntricas e ensimesmadas. São pessoas que experimentam prazer em humilhar, em marginalizar, em espalhar defeitos e falhas dos outros; sentem-se os donos da verdade, os melhores. O filho mais velho respresenta também um sistema social injusto, insensível e implacável para com os excluídos.
A parábola revela um Deus que é amor ao mostrar que o Pai acolhe o filho simplesmente por estar movido pela compaixão e não pora para conseguir que o filho confessasse seus pecados e assim pusesse em ordem sua vida. A misericórdia de Deus é modelo por excelência para quem quer ser misericordioso.Nome melhor para a parábola seria: A parábola do Pai Compassivo misericordioso, pois quem está no centro é o Pai e não o Filho que retorna. A parábola é uma história da vida, como evidencia a nomeação de céu (Deus) nos vv. 18 e 21: “Pai, pequei contra o céu e contra ti”. O Pai nos mostra a sua face, seu caráter através das seguintes atitudes:
Primeiro, o Pai respeita a liberdade do Filho. Este quer partir e o Pai deixa. Não o priva da liberdade para lhe dar segurança (pão). O Pai silencia se frente à fala do Filho (Lc 15,12). “Não é possessivo, nem autoritário. O Pai aceita, sem murmurar, sua condenação à morte simbólica no pedido do filho mais moço para dividir a herança... É Pai que sabe esconder sua decepção na hora da partida, mas não sua emoção na hora do retorno, longamente esperado” . O Pai age pedagogicamente contribuindo para o processo de personalização do Filho. Deixa que este experimente a vida. Não o tutela. É pela experiência que o filho “cai em si” (Lc 15,17), se desaliena, converte se. Decide voltar para o encontro com o Pai. Discurso e práticas tutelares impedem a pessoa de crescer em humanidade. Dificulta a pessoa “cair em si” (Lc 15,17).
Segundo, o Pai o enxerga de longe! Nós, na maioria das vezes, não vemos ou não queremos ver nem de perto. O olhar de Deus é penetrante e benevolente na relação com os perdidos. Supera o nosso olhar em muito. Deus vê de longe e em profundidade. “Tu me sondas e conheces; conheces meu sentar e meu levantar, de longe penetras o meu pensamento;... Teus olhos viam o meu embrião”(Sl 138,1 2.16). O Pai vê com ternura e benevolência. Vê não só com os olhos. Nem só com a cabeça, vê também, e principalmente, com o coração, os braços, os pés; enfim vê com o corpo todo. Pois o coração vê realidades que a cabeça não vê. Os braços vêem realidades que a cabeça não vê. E os pés vêem realidades que a cabeça não vê.
Terceiro, o Pai se comove (esplangnisthè, em grego)! A comoção parece ser súbita, muito mais rápida do que a nossa. A saudade do Filho se transforma de repente em esperança. A alegria toma conta de todo o corpo do Pai, contagia o integralmente. A dor se transforma em alegria! Importante ressaltar que não só a dor e o sofrimento comovem as pessoas. A beleza, a saudade, gestos gratuitos também nos comovem. O Pai não se contenta em se aproximar do filho que retorna à casa paterna caminhando devagar.
Quarto, o Pai corre ao encontro do filho. Correu! (Lc 15,20). Isto é para um oriental idoso totalmente incomum e abaixo de sua dignidade, mesmo quando tem muita pressa . A misericórdia do Pai supera em muito as expectativas do filho e a cultura oriental. Não o acolhe como empregado, mas como o melhor dos filhos.
Quinto, o Pai beija o filho inúmeras vezes. “Beijou-o” (Lc 15,20). O beijo é, como em 2 Sm 14.33, sinal do perdão. O Pai trata o filho não como um empregado, mas como um hóspede de honra.
Sexto, o Pai faz festa para o filho que volta à vida. No v. 22, o Pai dá três ordens. “São comparadas a Gn 41,42 onde José, depois de entronizado como primeiro ministro do Egito, recebe um anel, uma roupa de linho precioso e um colar de ouro. Vem em primeiro lugar a veste festiva; significa no Oriente uma alta distinção... Por a nova veste é figura do tempo da salvação... Anel significa plenos poderes. Sapatos são um luxo; é o homem livre que os usa: o filho não deve mais andar de pés no chão como um escravo... Carne só se comia raramente. As três ordens são uma publicação do perdão e do restabelecimento na condição de filho. ” O filho esperava ser recebido dentro de uma Espiritualidade da Lei que prescrevia a punição para a transgressão, mas foi recebido dentro de uma Espiritualidade da Compaixão Misericórdia, o que superou em muito a sua expectativa. Constatamos aqui um banho de misericórdia.
Sétimo, a misericórdia do Pai se estende também ao filho mais velho. Não o exclui. O Pai desconsidera a indignação deste filho. Este não reconhece o irmão como irmão, mas trata o como Filho do seu pai: “Esse teu filho...” (Lc 15,30). O Pai vai ao encontro deste filho para mostrar lhe que Ele é Pai de ambos os filhos e que estes devem ser fraternos: “Esse teu irmão...” (Lc 15,32). A Misericórdia de Deus não exclui ninguém, mas constrói a fraternidade a partir dos excluídos, as vítimas. Por esta parábola podemos concluir: Deus é assim: tão bondoso, tão gracioso, tão cheio de Compaixão e misericórdia, tão superabundante no amor. Sua maior alegria é a de perdoar.
A Misericórdia de Deus devolve a identidade ao filho. Ele volta a ser pessoa, a sentir se amado e disposto a amar. Ele que pensava ser um empregado, pela Compaixão Misericórdia do Pai, descobre que continua sendo filho. E não filho de qualquer pai, mas de um pai compassivo misericordioso. A Compaixão transborda em amor gratuito. Deus, não apenas, acaba com a dor do outro, mas faz festa com o marginalizado que volta. Deus não apenas transforma a dor em não dor, mas a transforma em alegria, em prazer. A misericórdia de Deus realmente transcende qualquer definição ou expectativa humana. A Compaixão é caminho que leva ao perdão, à misericórdia, ao amor gratuito.