Biografias

Escrito por Elísio Quintino

Policarpo foi um discípulo pessoal do Apostolo João, e foi bispo de Esmirna por muitos anos. Em sua velhice foi preso pelos romanos, e morreu heroicamente como mártir. Muitos cristãos conhecem de cor a frase: “Sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida” (Apocalipse 2.10). Esta pequena frase faz parte da carta escrita à igreja de Esmirna. No mesmo versículo, alias antes da frase já citada, lemos o seguinte: “Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias.” Notemos que “Sê fiel até a morte” não significa ser fiel até o fim da vida, até a velhice, mas significa ser fiel mesmo sob a ameaça de martírio, de assassinato por causa da fé em Cristo.

O bispo da igreja de Esmirna nessa mesma época era Policarpo. A bíblia não relata quais foram as perseguições que os cristãos de Esmirna sofreram, mas nós temos o conhecimento do martírio de Policarpo. Abaixo esta o relato do livro História Eclesiástica que conta como se deu a morte do amado bispo, ou seja, de como ele viveu literalmente o texto sê fiel até a morte.

1 O BISPO DE ESMIRNA

Desde seu início, a igreja cristã esteve sob severa perseguição. Ferreira (2006, p. 23) destaca que “entre o fim do século 1.º e o começo do século 4.º, houve dez perseguições patrocinadas pelo Império Romano”. O 2.º século encontrava-se exatamente no centro deste período, e a política adotada na época para com o cristianismo era a de que “se alguém os acusava, e se negavam a abandonar sua fé, deviam ser castigados; mas se ninguém os acusava, o estado não devia empregar seus recursos para persegui-los” (GONZALES, 2009, p. 65).

Foi em meio a este momento histórico que emergiu a figura de Policarpo (c. 70-150). Como bem destacou Frangiotti (In QUINTA, 2002, p. 129), “[...] de sua infância, sua formação, sua família, ignoramos tudo”. Todavia, embora não tenhamos quaisquer detalhes destes anos de sua vida, temos algumas informações sobre a sociedade na qual se desenvolveu até chegar ao ofício de bispo em Esmirna, o que poderá nos ajudar a compreender melhor como foi formado o caráter deste grande homem.

Esmirna (hoje Izmir), localizada na Ásia Menor (atual Turquia), era uma cidade portuária a oeste de Éfeso. Sabemos que apesar de enfrentar os mesmos problemas supracitados, os cristãos possuíam ali uma igreja forte e muito respeitada. Das cartas endereçadas às sete igrejas no Livro de Apocalipse, a única a não ser encontrada em falta fora a igreja de Esmirna. Deveras, é belíssimo o testemunho a respeito desta igreja conforme descrito por João (Apocalipse 2:8-11), o qual é encerrado com a promessa: “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida [...] O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte”.

Também Inácio de Antioquia, outro a tornar-se mártir, tece grandes elogios na carta endereçada a ela[1]. Logo no início, ela é saudada como uma igreja “[...] repleta de fé e amor, à qual não falta nenhum dom”, e que é “caríssima a Deus”; Inácio ainda descreve aqueles irmãos como “sábios” e “perfeitos na fé imutável” (In QUINTA, 2002, p. 115).

Foi nessa igreja que, como escreveu Ferreira, “Policarpo foi formado, educado e feito bispo”. Todas as informações que temos a seu respeito “[...] surgem a partir de seu serviço pastoral, como bispo, à frente da comunidade” (2006, p. 24).

Frangiotti (In QUINTA, 2002, pp. 129, 130) atesta que é possível reconstruir a personalidade de Policarpo a partir de alguns testemunhos fidedignos, tais como “[...] as freqüentes referências de Irineu de Lião, seu discípulo”. Segundo Frangiotti, na própria “Carta aos Filipenses”, Policarpo “[...] revela toda a sua alma, seu coração compassivo” e “sua compreensão para com os fracos”.

É importante destacar ainda uma peculiaridade acerca da ordenação de Policarpo ao episcopado da igreja em Esmirna. Segundo algumas fontes históricas, ele teria sido ordenado pelos próprios apóstolos. Ferreira (2006, p. 25) aponta para dois testemunhos importantes acerca deste fato: 1) o de Tertuliano, o qual declara que “Policarpo teria sido ordenado [...] pelas mãos do próprio apóstolo João, ‘segundo a tradição daquela igreja, do mesmo modo que a igreja de Roma afirma que Clemente fora ordenado bispo por Pedro [o Apóstolo]’”; e 2) o testemunho de Irineu, o qual menciona que Policarpo “não apenas foi discípulo dos apóstolos e viveu familiarmente com muitos dos que tinham visto o Senhor, mas foi estabelecido bispo da Ásia, na igreja de Esmirna, pelos próprios apóstolos”. A simples declaração de tal fato, ainda de acordo com Irineu, teria “[...] levado à conversão muitos dos gnósticos” em Roma, quando Policarpo ali estivera, “na época do bispado de Aniceto”.

As informações mais claras, porém, das quais dispomos concernentes a Policarpo, não dizem respeito ao modo como viveu, mas, sim, ao modo como morreu. Uma carta escrita pela igreja de Esmirna, e enviada à igreja de Filomélio, descreve em “detalhes aterradores”, como expressa Olson (2009, p. 47), o que ficou conhecido como o “Martírio de Policarpo”. Nela, lemos sobre o modo como o bispo de Esmirna foi perseguido e como, espontaneamente, se deixou capturar. Está escrito que após ser encontrado, Policarpo mandou servir uma refeição aos seus captores, solicitando apenas uma hora para orar antes de ser conduzido às autoridades (In QUINTA, 2002, p. 149).

Diante do procônsul, Policarpo se manteve firme. Quando solicitado que declarasse “Abaixo os ateus!” (como eram chamados os cristãos por não adorarem os deuses pagãos), Policarpo olhou “[...] severamente toda a multidão de pagãos cruéis no estádio” e, apontando para eles, disse: “Abaixo os ateus!” (In QUINTA, 2002, p. 150). Incitado a amaldiçoar o Cristo, ele respondeu: “Eu o sirvo há oitenta e seis anos, e ele não me fez nenhum mal. Como poderia blasfemar o meu rei que me salvou?” (In QUINTA, 2002, pp. 150, 151). Desprezando, assim, a ameaça de ser lançado às feras, foi sentenciado à fogueira. Antes de ser queimado, orou, bendizendo a Deus por ter sido “[...] julgado digno deste dia e desta hora, de tomar parte entre os mártires”, e do cálice de Cristo, “[...] para a ressurreição da vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo” (In QUINTA, 2002, p. 153).

Ferreira (2006, p. 28, 29), citando Curtis, Lang & Peterson, destaca que “nos 150 anos seguinte [...], à medida que centenas de outros mártires caminharam fielmente para a morte, muitos foram fortalecidos pelos relatos do testemunho fiel do bispo de Esmirna”.

2 O LEGADO LITERÁRIO DE POLICARPO

De acordo com Frangiotti (In QUINTA, 2002, p. 132), “Policarpo teria escrito várias cartas destinadas às diversas comunidades”. Todavia, a única preservada, “parcialmente em grego e inteiramente em latim”, foi a endereçada aos filipenses. Esta carta, escrita em 110 d.C., embora simples, tem especial relevância pela proximidade de seu autor com os escritores do Novo Testamento. Cairns (2008, p. 63) afirma que Policarpo “pôde conhecer de perto a mente dos discípulos por ter sido discípulo de João”. De fato, Policarpo aponta para questões basilares do cristianismo, das quais a maioria dos Pais se desviaram naqueles dias, como é o caso de sua soteriologia fortemente marcada pela graça e não pelas obras, embora a caridade não houvesse perdido seu devido valor. Logo no início de sua carta ele escreve: “E vós sabeis que é pela graça que fostes salvos, não pelas obras, mas pela vontade de Deus, por meio de Jesus Cristo” (In QUINTA, 2002, p. 139).

Policarpo faz grande uso do Novo Testamento, tendo-o em posição igual ao Antigo, apontando freqüentemente para as epístolas paulinas. Cairns alista 60 citações do N. T. na Carta do bispo de Esmirna aos filipenses, sendo 34 destas dos escritos de Paulo (2008, p. 34). Segundo Ferreira (2006, p. 26), ele também “estava familiarizado com [...] o evangelho de Mateus, além de citar 1 Pedro, 1 João e Atos”.

Policarpo se preocupa em defender a encarnação, morte e ressurreição de Cristo, provavelmente refutando algum perigo das heresias docetistas e gnósticas (In QUINTA, 2002, p. 143, 144, 151). Para ele, o sacrifício de Jesus foi substitutivo (vicário). “Cristo Jesus [...] carregou nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro” (In QUINTA., 2002, p. 143, 144).

Ainda tratando da carta aos Filipenses, Granconato (2010, p. 87), em concordância com o pensamento de Héber Carlos de Campos, atesta que “pode-se facilmente detectar o embrião de uma doutrina que [...] desenvolveu-se ao longo dos séculos”, sendo incluída “em versões posteriores do Credo Apostólico (a partir do século IV)”, figurando no “[...] Credo de Atanásio (séculos V e VI)”, chegando mesmo a tornar-se “[...] afirmação credal comum nos diversos documentos da igreja, especialmente a partir do século VII”, a saber, “a doutrina de que, entre seu sepultamento e ressurreição, Cristo desceu a um lugar chamado Hades a fim de completar ali sua obra de salvação”. Todavia, não poderia deixar-se de mencionar que, em sua carta, ele não chega a desenvolver “[...] os contornos exatos do seu pensamento sobre a descida de Cristo ao Hades” (GRANCONATO, 2010, p. 88).

Voltando olhos agora para a narrativa de seu suplício, parece ser possível inferir uma firme concepção da doutrina da Trindade; isto é evidenciado em sua oração final diante da sentença à fogueira, onde confere glória ao Pai, com Jesus Cristo [o Filho] e o Espírito, “[...] agora e pelos séculos futuros. Amém” (In QUINTA, 2002, p. 153).

A intenção principal, entretanto, de sua carta é fortalecer os irmãos em meio às perseguições, exortando-os a que vivam vidas santas, castas e que glorifiquem a Deus; instruindo-os a respeitarem as autoridades constituídas, tais como os presbíteros e os diáconos, na realidade eclesiástica, e “[...] os reis, autoridades e príncipes”, na esfera civil, pelos quais deveriam orar sempre (In QUINTA, 2002, p. 146).

Policarpo não nos deixou um legado literário muito extenso, mas seu exemplo de fé e ortodoxia continua a fortalecer cristãos, incentivando-os a andar com o Senhor até os dias de hoje, lembrando sempre que “se sofrermos por causa do seu nome, o glorificaremos” (In QUINTA, 2002, p. 144).


(Da obra História Eclesiástica, Livro IV, XV, Eusébio de Cesareia)

DOCUMENTO

XV

[De como, nos tempos de Vero, Policarpo sofreu o martírio junto com outros da cidade de Esmirna]

1. Neste tempo[1] morreu mártir Policarpo, quando enormes perseguições estavam perturbando a Ásia. Creio ser muito necessário incluir na narrativa da presente história o relato de seu fim, ainda conservado por escrito.

2. A carta está escrita em nome da Igreja que ele governava, para as igrejas de (todo)[2] lugar e declara o que se refere a ele nos seguintes termos:

3. "A igreja de Deus que peregrina[3] em Esmirna à igreja de Deus que reside como forasteira em Filomelio e a todas as comunidades da santa Igreja católica, forasteiras em todo lugar: a misericórdia, a paz e o amor de Deus Pai e de nosso Senhor Jesus Cristo se multipliquem. Nós vos escrevemos, irmãos, o que se refere aos que sofreram martírio e ao bem-aventurado Policarpo, que com seu martírio, como se houvesse posto seu selo, fez cessar a perseguição."

4. Em continuação, e antes de referir-se a Policarpo, narram o referente aos mártires e descrevem a constância que mostraram ante os tormentos, pois contam que foram motivo de assombro para os que formavam círculo em torno deles e os contemplavam, ora dilacerados por açoites até o mais profundo de suas veias e artérias, de forma que podiam observar os órgãos de seus corpos, suas entranhas e seus membros, ora a outros, estendidos sobre conchas marinhas e pontas afiadas, e entregues por fim como pasto às feras, depois de ter passado por castigos e tormentos de toda espécie.

5. E contam que distinguiu-se especialmente o nobilíssimo Germânico, que com a ajuda da graça divina sobrepôs-se à covardia natural ante a morte do corpo. O Procônsul queria persuadi-lo e alegava como pretexto sua idade, e suplicava-lhe que, já que estava na flor da juventude, tivesse compaixão de si mesmo; mas ele não vacilou, mas valentemente atraiu para si as feras, quase forçando-as e atiçando-as, para poder afastar-se mais rapidamente da vida injusta e criminosa daqueles.

6. Ante a gloriosa morte deste homem, a multidão toda pasmou-se vendo a valentia do mártir divino e a virtude de toda a linhagem dos cristãos, e todos a uma voz começaram a gritar: "Morram os ateus! Que se busque Policarpo!"

7. Tendo-se criado com a gritaria uma grande confusão, certo homem da Frigia, chamado Quinto, recentemente chegado da Frigia, ao ver as feras e tudo o mais que o ameaçava, sentiu enfraquecer-se a alma presa do medo e terminou por abandonar sua salvação.

8. Mas o relato do escrito acima demonstra que este homem lançou-se ante o tribunal de forma demasiado precipitada e sem a devida cautela. Assim pois, uma vez preso, proporcionou a todos um exemplo manifesto de que não é lícito arriscar-se em tais empresas temerária e incautamente. Assim terminava o que se referia a estes homens.

9. Quanto ao admirável Policarpo, quando ouviu estas coisas não se perturbou; seguiu observando firme e imutável seus costumes e queria permanecer ali, na cidade. Mas persuadido pelas súplicas dos que o rodeavam e pelos que o exortavam a afastar-se secretamente, retirou-se a uma propriedade não muito distante da cidade, e ali passava seu tempo em companhia de uns poucos, não fazendo outra coisa, noite e dia, que perseverar na oração ao Senhor. Nela pedia e suplicava pela paz, pedindo-a para as igrejas de todo o universo, o que aliás sempre fora costume seu.

10. E foi enquanto orava, numa visão que teve à noite três dias antes de sua prisão, quando viu que o travesseiro de sua cabeceira se consumia completa­mente abrasado pelo fogo. Despertado pelo fato, logo interpretou para os presentes o ocorrido, quase adivinhando o futuro, e anunciou claramente aos circunstantes que ele haveria de morrer por Cristo no fogo.

11. Assim pois, quando os que o procuravam com toda presteza já se achavam próximos, diz-se que ele se mudou para outro sítio, forçado novamente pela disposição e o amor dos irmãos, e ali apareceram pouco depois os perseguidores, que detiveram dois criados. Submeteram um deles a torturas e assim chegaram ao paradeiro de Policarpo.

12. Como chegaram a uma hora tardia, encontraram-no deitado num cômodo do piso superior, de onde era possível passar para outra casa; mas ele não quis fazê-lo e disse: "Cumpra-se a vontade de Deus."

13. Efetivamente, quando soube que estavam ali - como diz o relato —, desceu e pôs-se a conversar com eles, com o rosto radiante e cheio de suavidade, de forma que aqueles que antes não o conheciam acreditavam estar vendo um prodígio, ao considerar sua avançada idade e seu porte venerável e firme, e se admiravam de tanto esforço para prender um ancião.

14. Mas ele, sem tardar, manda que lhes ponham a mesa; logo convida-os a participar de abundante jantar e pede-lhes apenas uma hora para orar tranqüilo. Como eles o permitiram, levantou-se e pôs-se a orar, cheio da graça de Deus. Os presentes estavam assombrados ouvindo-o rezar, e muitos deles arrependeram-se já de que tivesse que ser executado um ancião tão venerável e digno de Deus.

15. Depois do que foi dito, o escrito que trata dele continua a narrativa literal­mente como segue:

"Quando terminou sua oração, depois de fazer memória de todos com quem havia tratado em sua vida, pequenos e grandes, ilustres e plebeus, e de toda a Igreja católica espalhada por toda a terra habitada, quando chegou a hora de partir, sentaram-no no lombo de um asno e conduziram-no à cidade. Era dia de grande sábado. Foram ao encontro do irenarca[4] Herodes e seu pai, Nicetas, fizeram-no subir em seu carro, sentaram-no a seu lado e trataram de persuadi-lo dizendo: "Mas que há de mal em dizer: César é o Senhor! E em sacrificar, e com isto salvar a vida?"

16. "Policarpo a princípio não respondia, mas como insistissem, disse: "Não tenho intenção de fazer o que me aconselhais.' Como não conseguiram seu intento, começaram a dizer-lhe palavras terríveis e fizeram-no descer a toda pressa, tanto que ao descer do carro arranhou a perna. Mas ele, sem virar-se, como se nada tivesse lhe acontecido, pôs-se animadamente a caminhar com pressa, conduzido ao estádio.

17. Era tal o ruído no estádio, que muitos não podiam ouvir. Entrando Policarpo no estádio, sobreveio uma voz do céu: 'Sê forte, Policarpo, e porta-te como homem.' Ninguém viu quem falou, mas muitos dos nossos ouviram a voz.

18. Quando o 'conduziam armou-se grande tumulto por parte dos que perce­beram que haviam prendido Policarpo. Logo, quando se aproximou, per­guntou-lhe o procônsul se ele era Policarpo. Tendo ele confessado, aquele tentou persuadi-lo a que renegasse, dizendo: 'Tenha consideração a tua idade', e outras coisas parecidas a estas, como tem costume de dizer: 'Jura pelo gênio do César. Muda de pensar.' Diga: 'Morram os ateus!'

19. Mas Policarpo olhou com rosto severo a toda a turba que se encontrava no estádio, agitou para eles sua mão e, entre soluços e levantando a vista ao céu, disse: 'Morram os ateus!'

20. Mas quando o governador lhe pediu e disse: 'Jura e te soltarei; maldiz a Cristo', Policarpo disse: 'Oitenta e sei anos venho servindo-o e nenhum mal me fez. Como posso blasfemar contra meu rei, que me salvou?'

21. Como o procônsul insistisse novamente e dissesse: 'Jura pela sorte do César', Policarpo respondeu: "Se abrigas a vã pretensão de que eu jure pelo gênio do César, como dizes, fingindo que ignoras quem sou eu, com franqueza, escuta: sou cristão. Mas se é que queres aprender a doutrina do cristianismo, dá-me um dia e escuta".

22. Disse o procônsul: "Convence ao povo". Policarpo replicou: "A ti considero digno do meu discurso, pois nos é ensinado render as honras devidas às autoridades e potestades estabelecidas por Deus[5], enquanto não seja em detrimento nosso; mas a estes não os considero dignos de que me defenda perante eles.'

23. E o procônsul disse: 'Tenho feras. A elas te lançarei se não mudas tua posi­ção.' Mas ele respondeu: 'Chama-as, porque para nós não é possível mudar de posição se é do melhor para o pior. O bom é mudar do mau para o justo.'

24. Insistiu o procônsul: 'Como não te arrependes, farei com que o fogo te dome se desprezas as feras'. Policarpo disse: "Ameaças com um fogo que arde algum tempo, mas depois de um pouco se apaga. E ignoras o fogo do juízo futuro e do castigo eterno, reservado aos ímpios. Mas, por que tardas? Traga o que quiseres.'

25. Enquanto dizia isto e muitas outras coisas mais, enchia-se de valor e de alegria, e seu rosto transbordava de graça, ao ponto de que não somente não caiu em confusão pelas coisas que lhe diziam, mas pelo contrário, foi o procônsul que ficou fora de si e chamou o arauto para que no meio do estádio apregoasse três vezes: 'Policarpo confessou que é cristão.'

26. Quando o arauto disse isso, toda a turba de gentios e de judeus que habitavam Esmirna se pôs a gritar com ânimo exaltado e grande vozerio: 'Este é o mestre da Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses, o que ensinou a muitos a não sacrificar e a não adorar.'

27. Enquanto diziam isto, gritavam mais e mais, e pediam ao asiarca[6] Felipe que lançasse um leão contra Policarpo. Disse ele que não podia, por estar terminado o combate de feras. Então acharam por bem gritar juntos que Policarpo fosse queimado vivo.

28. E devia cumprir-se a visão que teve de seu travesseiro quando, enquanto orava, viu que se consumia abrasado, e voltando-se para os fiéis que estavam com ele, disse-lhes em tom profético: 'Devo ser queimado vivo.'

29. Isto se fez mais depressa do que foi dito. A turba arrancou das oficinas e dos banhos a madeira e lenha miúda. Os mais entusiásticos em colaborar com a tarefa foram, como de costume, os judeus.

30. Quando a fogueira estava pronta, Policarpo despojou-se de todas suas rou­pas e, descingindo-se, tratou de soltar também seu calçado, coisa que antes não fazia pois cada fiel sempre se esforçava para ser o primeiro a tocar sua pele; porque a todo momento, antes mesmo de ter os cabelos brancos, havia sido honrado por causa de sua santa vida.

31. Em seguida foram colocando a sua volta os instrumentos preparados para a fogueira, mas quando já iam pregá-lo, disse-lhes: "Deixai-me assim, pois quem me dá esperar com pés firmes o fogo, me dará também, sem que seja necessária a segurança de vossos pregos, o manter-me firme na fogueira.' E não o pregaram, mas amarraram-no.

32. Com as mãos às costas e amarrado como um carneiro escolhido que é tirado de um grande rebanho como holocausto aceitável a Deus Todo-poderoso, disse:

33. 'Pai de teu amado e bendito Filho Jesus Cristo, por quem recebemos o conhecimento acerca de ti, Deus dos anjos, das potestades, de toda a criação e de toda a raça dos justos que vivem em tua presença: Bendigo-te porque me julgaste digno deste dia e desta hora, para ter parte, entre o número dos mártires, no cálice de teu Cristo para ressurreição na vida eterna, tanto da alma como do corpo, na integridade do Espírito Santo.

34. Oxalá seja eu recebido em tua presença hoje, com eles, em sacrifício pio e aceitável!, segundo preparaste de antemão, como de antemão o manifestaste e o cumpriste, ó Deus sem mentira e verdadeiro!

35. Por esta razão, e por todas as coisas, te louvo, te bendigo, te glorifico, por meio do eterno e sumo sacerdote Jesus Cristo, teu Filho amado, pelo qual seja a glória a ti, com Ele no Espírito Santo, agora e nos séculos vindouros. Amém.'

36. Quando pronunciou o Amém e terminou sua oração, os encarregados do fogo acenderam-no, mas, fazendo-se uma grande chama, vimos um prodígio, aqueles aos quais foi dado vê-lo e que fomos conservados para anunciar aos demais o ocorrido.

37. Ocorreu que o fogo, formando uma espécie de abóbada, como a vela de um navio enchida pelo vento, protegeu o corpo do mártir como uma muralha em torno. E ele estava no meio, não como carne queimada, mas como ouro e prata candentes no forno. E nós, em verdade, sentíamos uma fragrância tal, como exalada pelo incenso ou por qualquer outro aroma precioso.

38. Ao fim, vendo aqueles ímpios que o corpo não podia ser consumido pelo fogo, ordenaram ao confector[7] que se aproximasse e cravasse nele sua espada;

39. feito isto, brotou um caudal de sangue tão grande que apagou o fogo e deixou assombrada a multidão que via a grande diferença entre os infiéis e os eleitos. Um destes foi este homem, admirável em demasia, mestre apostó­lico e profético de nossos dias, bispo que foi da igreja católica de Esmirna. Efetivamente, toda palavra que saiu de sua boca se cumpriu e se cumprirá.

40. Mas o rival e invejoso maligno, adversário da raça dos justos, ao ver a grandeza de seu martírio e a vida irrepreensível que havia levado desde o princípio e que já estava coroado com a coroa da integridade e já tinha alcançado um prêmio indiscutível, dispôs as coisas de tal maneira que nós não recolhemos seu corpo, mesmo sendo muitos os que desejavam fazê-lo e ter parte em seus santos despojos.

41. Alguns pois, sugeriram a Nicetas, pai de Herodes e irmão de Alce, solicitar do governador que não entregasse o corpo do mártir, 'não ocorra que -disse - deixando o crucificado, comecem a render culto a este'. E diziam isto por sugestão e por pressão dos judeus, que também vigiavam quando nós íamos recolhê-lo da fogueira. Pois ignoram que nós jamais poderemos abandonar a Cristo, que padeceu pela salvação de todos os que no mundo inteiro se salvam, nem render culto a nenhum outro.

42. Porque a este adoramos por ser Filho de Deus; aos mártires, por outro lado, amamos justamente porque são discípulos e imitadores do Senhor, por causa de sua insuperável benevolência para com seu próprio rei e mestre. Oxalá também nós fôssemos partícipes de sua sorte e seus condiscípulos!

43. Vendo pois o Centurião a insistência dos judeus, pôs o corpo no meio, como de costume, e queimou-o. E assim nós logo retiramos seus ossos, mais estimáveis que as pedras preciosas e mais dourados do que o ouro, e os guardamos em lugar conveniente.

44. Ali, reunidos enquanto nos seja possível, jubilosos e alegres, o Senhor nos concederá celebrar o aniversário de seu martírio, para memória dos que lutaram e para exercício e preparação dos que terão que lutar.

45. Este foi o final do bem-aventurado Policarpo. Ainda que sejam doze o número dos martirizados em Esmirna, junto com os de Filadélfia, ele é o único de quem todos mais se recordam, ao ponto de que inclusive os pagãos estão falando dele em todas as partes."

46. Deste final fez-se digno o admirável e apostólico Policarpo, cujo relato foi exposto pelos irmãos da igreja de Esmirna na carta deles que citamos. Neste mesmo escrito que trata dele estão juntos outros martírios que tiveram lugar na mesma Esmirna na mesma época que o martírio de Policarpo. Com eles pereceu também, entregue às chamas, Metrodoro, que se acredita que fosse presbítero da seita de Márcion.

47. Mas o mártir mais famoso dos de então foi Pionio. Suas sucessivas confissões, sua liberdade de expressão, suas apologias da fé em presença do povo e das autoridades, seus discursos didáticos ao povo e ainda sua amável acolhida aos que haviam sucumbido na prova da perseguição, assim como as exortações que, estando no cárcere, dirigia aos irmãos que a ele acudiam, e também os tormentos que depois sofreu, os suplícios que se juntaram, seu encravamento, sua integridade na fogueira e, depois de todas estas maravilhas, sua morte: tudo isto está contido de maneira muito completa no escrito que dele trata[8]. A ele remetemos quem se interessar: acha-se incluído entre os martírios dos antigos, por nós recompilados.

48. Conservam-se também as atas de outros mártires que foram martirizados em Pérgamo, cidade da Ásia: Carpo, Papilo e uma mulher, Agatonice, que acabaram gloriosamente depois de muitas e ilustres confissões.



[1] Tempos de Marco Aurélio.

[2] O original não tem a palavra "todo", mas esta aparece no endereçamento da carta abaixo.

[3] Usa-se o termo "peregrino" ou "forasteiro" para expressar a condição do cristão como estando de passagem por este mundo.

[4] Espécie de comissário de polícia nomeado pelo procônsul para guardar a ordem pública nas cidades.

[5] Rm 13:1; I Pe 2:13.

[6] Presidente do concilio da província da Ásia, e como tal, sumo sacerdote e diretor dos jogos públicos.

[7] O confector era quem dava o golpe de misericórdia aos homens e às feras ao fim dos combates.

[8] As Atas de Pionio.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAIRNS, E. E. O Cristianismo Através dos Séculos: uma história da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova, 2ª Edição, 2008.

FERREIRA, F. Gigantes da Fé. São Paulo: Editora Vida, 2006.

GRANCONATO, M. Eles Falaram Sobre O Inferno: a doutrina da perdição eterna nos primeiros escritos cristãos. São Paulo: Arte Editorial, 2010.

QUINTA, M. (Org.). Padres Apostólicos. Coleção Patrística. São Paulo: Paulus, 3ª Edição, 2002.

GONZALES, J. Uma História Ilustrada do Cristianismo: a era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 2009.

OLSON, R. História Da Teologia Cristã: 2.000 anos de tradição e reformas. São Paulo: Vida, 2009.


Fonte: (Da obra História Eclesiástica, Livro IV, XV, Eusébio de Cesareia)