Neemias comentado

5.1-5 — O prolongado período de trabalho, vigília, medo e cansaço causou, inevitavelmente, problemas entre o povo em Jerusalém. Existiam três grupos de queixosos, cada qual apresentado por meio da frase havia quem dizia. O primeiro grupo possuía famílias grandes e não dispunha de comida suficiente. O segundo tinha altas hipotecas a pagar e não podia comprar alimento. O terceiro precisava pagar altos impostos e foi forçado a hipotecar sua terra e, até mesmo, a vender seus filhos. A fome, a carência, os impostos e o dinheiro, apesar de serem resultados imediatos das circunstâncias do povo, não eram a raiz do problema. A dificuldade maior do povo está identificada nas palavras contra os judeus, seus irmãos. Os judeus não se queixavam apenas da pobreza e dos altos impostos; estavam reclamando uns dos outros. No versículo 1, o povo refere-se ao pobre; os irmãos, aos nobres (v.7). Resumindo, havia uma luta de classes. O menos favorecido financeiramente havia hipotecado suas terras, vinhas e casas, tomado dinheiro emprestado e, até mesmo, vendido seus filhos e suas filhas como escravos. De acordo com a Lei, aí existiam dois problemas: (1) usura, empréstimo de dinheiro e cobrança de juros; (2) escravidão. Não era errado um judeu emprestar dinheiro com juros a um não judeu (Dt 23.19,20), como também não o era emprestar dinheiro a outro judeu. No entanto, a Lei proibia a usura (Ex 22.25). As taxas de juros eram exorbitantes e, facilmente, podiam levar alguém à pobreza e à escravidão — o que acarreta um segundo-problema. De acordo com a Lei mosaica, um judeu podia alugar seus serviços a outra pessoa, mas não como um escravo (Lv 25.35-40).

5.6 — Muito me enfadei (aborreci). A primeira reação de Neemias aos pecados do povo judeu foi de raiva. A desobediência deliberada à Palavra de Deus devia deixar alguém indignado contra o pecado, mas não contra o pecador.

5.7-10 — Depois de aborrecer-se com os pecados dos judeus (v.6), Neemias passou um tempo considerando com ele mesmo e, então, confrontou os culpados.

O termo pelejei (repreendi, ara) é muito usado pelos profetas para falar de casos legais contra os culpados (Ne 13.11). Depois de repreender as partes culpadas separadamente, Neemias as confrontou em público com as mesmas acusações. Não é bom. Aqui, duas atitudes estão em jogo — o temor de Deus (Ne 1.5) e o opróbrio dos gentios. Quando Israel, uma nação chamada pelo Senhor, parou de honrá-lo e obedecer-lhe, foi um escândalo, pois o nome de Deus havia sido desonrado.

5.11,12 — Neemias desafiou os líderes a restituir o que eles tinham tomado com juros. O centésimo do dinheiro é provavelmente uma referência ao juro que eles estavam cobrando.

5.13 — Neemias sacudiu o seu regaço como se quisesse livrar-se do que estava carregando. Ao fazê-lo, dramatizou o que o Altíssimo faria se o povo quebrasse a Sua promessa: Deus os sacudiria para longe de suas casas e de seus bens.

5.14-19 — Essa parte resume a época de Neemias como governador. O que ele fez, como registrado aqui, contrasta com o que os nobres haviam feito anteriormente (v. 1-13). Eles tinham sido egoístas, enquanto Neemias foi altruísta. Eles queriam tirar proveito do que pudessem; ele queria dar o que pudesse. Eles estavam pensando neles próprios; Neemias aguardava em Deus e em Seu povo. Ele contrasta o temor que tinha de Deus (v. 15) com a falta deste sentimento por parte dos nobres (v. 9). Também avalia seu comportamento com o dos governadores que o precederam (v. 15). Ele não chegou com o intuito de servir a si mesmo (v. 16), mas de servir aos outros (v. 17). Sua mesa estava repleta de alimento e vinho maravilhosos (v.18), mas não à custa dos outros. Aliás, ele cuidou para não usar as provisões que pudesse ter exigido do povo como seu governador (v. 14,18), pois sabia que os problemas que os judeus tinham já eram muitos. Enfim, o que ele desejava era o sentimento de regozijo de Deus (v. 19).

5.14 — Durante os 12 anos em que administrou Jerusalém (444—432 a.C.), Neemias não recolheu impostos do povo, embora como governador tivesse esse direito.

5.15 — Muitos governadores anteriores pagaram suas despesas pessoais com os impostos dos judeus. Eles oprimiram o povo. Os governadores antes de Neemias tinham dificultado a vida para o povo. Dominavam indica um governo arbitrário e opressor, com abuso de poder por meio de extorsão.

5.16-18 — Neemias não adquiriu hipotecas na terra. Ele poderia ter obtido bens imóveis facilmente e vendido tudo com um grande lucro. Porém, em vez de ganharem dinheiro para eles próprios, Neemias e seus servos trabalharam no muro de Jerusalém para a proteção do povo e a glória de Deus.

5.19 — O motivo de Neemias era claro: ele não estava fazendo o bem para dar glória aos homens, mas para agradar a Deus. Sua oração se repete no final do livro (Ne 13.31).


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