O herói deste livro é Neemias. Ele era o copeiro de Artaxerxes, o rei da Pérsia, e conseguiu licença para voltar a Jerusalém a fim de reconstruir as muralhas da cidade. Durante os seus doze anos como governador da terra de Judá (Ne 5.14), Neemias reconstruiu as muralhas de Jerusalém e realizou uma série de reformas religiosas e sociais entre o povo. Ele dependia totalmente de Deus e, muitas vezes, orava pedindo a ajuda de Deus (Ne 1.5-10; ver Ne 4.4). A primeira parte do livro (caps. 1—7) pode ser chamada de “Memórias de Neemias”, porque conta uma série de coisas que o próprio Neemias fez. Ele voltou para Jerusalém e, com a ajuda dos habitantes da cidade, reconstruiu as muralhas da cidade. Havia muitos inimigos, mas, finalmente, a construção chegou ao fim, e as muralhas foram inauguradas.

Na segunda parte do livro (caps. 8—10), quem aparece com destaque é Esdras, o sacerdote e mestre da Lei (Ed 7—10). Depois de leitura pública da Lei e da celebração da Festa das Barracas (cap. 8), o povo confessou seus pecados (Ne 9.1-37) e fez um acordo solene com Deus, prometendo viver segundo o que manda a Lei de Moisés (Ne 9.38—10.39). O livro termina falando sobre outras atividades de Neemias (caps. 11—13). 


A teologia ensina-nos que Deus está interessado no destino dos indivíduos e das nações. Os cativeiros assírio e babilônico, como é óbvio, tiveram motivações meramente humanas, com base na ganância e na violência dos homens, ou na desumanidade dos homens contra os homens. No entanto, ambos os cativeiros também foram castigos bem merecidos que receberam as nações de Israel (do norte) e de Judá (do sul), em face de seus pecados e apostasias, “que formavam multidão". Os juízos divinos sempre são também remediais e restauradores, e não meramente vindicativos. O propósito de Deus, pois, operou através de nações como a Assíria, a Babilônia e a Pérsia. Mas também operou por meio dos restauradores da nação de Israel, como Esdras, Neemias, Zorobabel, Josué, Ageu e Zacarias, além de outros profetas que haviam advertido e instruído as nações de Israel e de Judá em tempos críticos, como Jeremias, Isaías e os profetas menores, como uma classe. Ora, a unidade literária Esdras-Neemias faz parle desse quadro maior, relatando-nos os anos críticos durante os quais Judá teve um novo início histórico em Jerusalém, tendo sido assim preservados a identidade e o destino do povo hebreu. As catástrofes posteriores, como as do tempo dos macabeus, da dominação romana e da grande dispersão mundial, não foram capazes de anular os propósitos de Deus. As profecias bíblicas falam de significativos eventos futuros que porão Israel à testa das nações da terra. Neemias faz parle da caudal do grandioso propósito divino, que tem prosseguimento apesar dos obstáculos que ocasionalmente parecem diminuir o ímpeto ou mesmo desviar a direção do seu fluxo.

 


Quando o Livro de Neemias foi Escrito?

 

Se aceitarmos a ideia de que Neemias escreveu pessoalmente o livro inteiro de Neemias, ou, pelo menos, uma porção essencial, então teremos de pensar em uma data posterior a 433 A.C. Mas, se algum autor-editor (cronista) esteve envolvido, então essa data poderia ser esticada até cerca de cem anos depois disso. Alguns eruditos do hebraico afirmam que o tipo de hebraico envolvido na obra é posterior, pertencendo a talvez cem anos após a época de Neemias, período durante o qual houve algumas significativas mudanças de linguagem. Um dos argumentos em favor de uma data posterior é a suposta confusão que teria ocorrido com a incorporação de material do livro de Esdras, na parte da unidade que veio a ser conhecida, mais tarde, como livro de Neemias. A ordem dos eventos parece ter sido perturbada nesse material. Fica pressuposto que uma pessoa que tivesse vivido mais perto dos acontecimentos, que tivesse tido a vantagem de poder consultar testemunhas oculares, não teria feito tais deslocamentos de material. Ver a quinta seção, Problemas Especiais do livro, para uma discussão a respeito.

A despeito do problema de autoria (ou de editoração), o livro de Neemias sempre desfrutou do caráter de canonicidade entre os judeus palestinos e alexandrinos. Alguns críticos pensam que, pelo menos quanto a certas porções da narrativa, o editor dependeu de informes fictícios, os quais passaram a ser reputados como autênticos. E quanto ao material canônico, o autor teria dependido de I e II Crônicas, embora alguns também digam que ele deixou correr solta a imaginação. Todas as investigações nesse campo deixam a questão no ar, visto que os argumentos que têm sido apresentados, contra e a favor, não são conclusivos. A grande verdade é que a unidade literária de Esdras-Neemias é praticamente a única fonte informativa autorizada de que dispomos quanto ao período histórico que envolve a restauração de Judá à cidade de Jerusalém. Isto posto, é impossível averiguar exatidão histórica dessa narrativa, exceto por meio da arqueologia, que ainda não apresentou coisa alguma obviamente contrária a ela. E, apesar de talvez ser verdade que certas porções desse material pareçam estar deslocadas do lugar certo, isso não milita contra a exatidão geral do relato bíblico. Sabemos que os hebreus sempre foram historiadores cuidadosos; e, apesar do adjetivo ‘'cuidadoso’’ não ser idêntico a “perfeito”, isso não envolve nenhuma inexatidão essencial. Outrossim, o período histórico ali coberto reveste-se de importância especial. Aquela foi a ressurreição histórica da nação hebréia, em sua cultura e em sua fé. É difícil acreditar que algum judeu piedoso tivesse manuseado desonestamente essa ressurreição histórica, e outros judeus, da Palestina ou de qualquer outro lugar, tivessem aceito sem protestar as supostas distorções históricas.



Tudo quanto sabemos acerca de Neemias, cujo nome, em hebraico, significa “Yahweh consola”, pode ser derivado do livro que tem o seu nome, bem como de algumas tradições que circundam a sua carreira. Não é dada a sua genealogia, mas é dito que ele era filho de Hacalias (Nee. 1.1) e tinha um irmão de nome Hanani (Nee. 7.2). Também ficamos sabendo que, durante o cativeiro babilônico, ele ocupava a honrosa incumbência de ser o copeiro do rei Artaxerxes Longimano, em Susã (ver Nee. 2.1). Isso ocorria por volta de 446 A.C. Tendo ouvido falar sobre as deploráveis condições de vida que prevaleciam na Judeia, ele foi a Jerusalém procurar melhorar tais condições. Para tanto, teve de apresentar uma petição ao monarca a fim de que lhe fosse dada permissão de ir a Jerusalém para reconstruí-la. Esse pedido lhe foi concedido e do rei ele recebeu o título persa de tirshatha, “governador”, que era sua carta branca para agir. Neemias foi enviado com uma escolta de cavalaria e munido de cartas, da parte do rei, endereçadas a diversos sátrapas das províncias pelas quais ele teria de passar. Uma dessas missivas era para Asafe, que cuidava das florestas do rei, e que recebeu ordens para suprir a madeira necessária para Neemias, em sua tarefa de reconstrução. Neemias prometeu ao rei que voltaria, terminada a sua tarefa (ver Nee. 2.1-10).

Chegando a Jerusalém, Neemias realizou a notável tarefa de restaurar as muralhas de Jerusalém no breve espaço de cinqüenta e dois dias (Nee. 6.15). Naturalmente, Neemias encontrou quem lhe fizesse oposição, aqueles que não queriam que Judá se reerguesse. Os principais adversários foram Sambalate e Tobias. Esses dois chegaram a planejar apelar para a violência, se necessário fosse, para impedir a reconstrução, e assim os que reconstruíam a cidade tiveram de fazê-lo armados, a fim de afastar a ameaça (ver Nee. 4).

Além das reedificações, Neemias tomou medidas que visavam a reforma, tendo introduzido a lei e a boa ordem, e restaurado a adoração a Yahweh, em consonância com as antigas tradições judaicas (ver Nee. 7 e 8). Mas seus adversários, ao insinuarem que Neemias queria tornar-se um monarca independente em Judá, conseguiram impedir temporariamente o trabalho de reconstrução e de reformas (ver Esd. 4.2). Todavia, contornada essa dificuldade, o trabalho teve prosseguimento, contando com a cooperação de Esdras, o sacerdote, que havia chegado antes dele em Jerusalém e se tornara importante figura política e religiosa em Jerusalém (ver Nee. 8.1,9,13 e 12.36).

Após doze anos de trabalho profícuo em Jerusalém, Neemias retornou à corte de Artaxerxes (Nee. 5.14; 13.6), em cerca de 434 A.C. Não nos é informado por quanto tempo ele permaneceu ali; mas, após algum tempo, ele voltou a Jerusalém. Isso posto, podemos apresentar a seguinte cronologia:

Neemias foi nomeado governador em 445 A.C. (Nee. 2.1). Voltou à corte de Artaxerxes em 433 A.C. (Nee. 5.14). Então voltou a Jerusalém, “ao cabo de certo tempo" (Nee. 13.6). Seu retorno a Jerusalém foi assinalado por novas reformas, incluindo a questão da rejeição às mulheres estrangeiras com quem os judeus se tinham casado, durante o tempo do cativeiro babilónico. Além disso, o amonita Tobias foi expulso do templo, onde estava residindo, foi restaurada a observância do sábado, e, de modo geral, as coisas foram postas em ordem (ver Nee. 13Í.

É provável que Neemias tenha permanecido em Jerusalém até cerca de 405 A.C., que teria sido o fim do reinado de Dario Noto (Nee. 12.22). Contudo, não temos nenhuma informação certa sobre o tempo e a maneira da morte de Neemias.

O livro de Neemias, de acordo com os estudiosos conservadores, foi escrito pessoalmente por ele, embora muitos suponham que suas tradições tenham sido incorporadas ao livro por algum autor posterior. O trecho de Nee. 1.1 afirma que o livro é de autoria de Neemias; mas isso poderia significar que os pontos essenciais de sua história foram ali incorporados. O que é seguro é que a autobiografia de Neemias foi a principal fonte informativa do livro, mesmo que ele não o tenha composto pessoalmente. Alguns dentre os especialistas que pensam que o autor que compilou a obra viveu após o tempo de Neemias, crêem que o autor do livro também escreveu I e II Crônicas e Esdras, e viveu ou no século IV ou no século III A.C. Seja como for, a autobiografia de Neemias acha-se principalmente nos seguintes trechos: Nee. 1-7; 12.27-43; 13.4-31.

E, se essa teoria de outra autoria está com a razão, então outras porções do livro foram compiladas com base em diversas fontes informativas.

Na Bíblia hebraica, os livros de Neemias e Esdras compõem um único volume. E o livro de Esdras também não envolve reivindicação de autoria. É provável que um único autor-editor tenha escrito a unidade inteira, e, na porção que alude a Neemias, aquele autor-editor tenha vinculado esse nome, porque, na realidade, estava ali incorporando a autobiografia de Neemias. No entanto, apesar de Esdras ter sido a personagem principal daquilo que, atualmente, se chama de livro de Esdras, este não deixou a sua autobiografia, pelo que o seu nome não aparece vinculado à unidade. Mas, de fato, Esdras e Neemias compõem um Único livro, que foi preparado como suplemento de I e II Crônicas. E assim, a idéia de um autor-editor haver trabalhado com essa coletânea, como um todo, não é destituída de razão. Na Septuaginta, os livros de Esdras-Neemias ainda aparecem unidos; mas, nas modernas Bíblias hebraicas, os dois livros são separados, a partir da edição chamada de Bomberg, de 1525 D.C. Essa edição seguiu o arranjo alemão, no qual os dois livros apareciam separados. Eusébio de Cesareia tinha conhecimento de apenas um livro, “Esdras-Neemias”, chamado de livro de Esdras, que, sem dúvida incluía a porção que hoje foi separada como o livro de Neemias. No entanto, nos dias de Orígenes, pelo menos em algumas coletâneas dos livros sagrados, esses dois livros apareciam distintos um do outro. A unidade Esdras-Neemias pertence à terceira divisão da Bíblia hebraica, a divisão chamada Escritos ou Hagiógrafos.


 

1.1 — Neemias, cujo nome significa o Senhor conforta, era um estadista de alto posto associado a Esdras no trabalho de restabelecimento do povo de Judá na Terra Prometida. O mês de quisleu corresponde a novembro e dezembro em nosso calendário (Ed 10.9). O ano vigésimo refere-se ao décimo segundo ano do reinado de Artaxerxes I, o Longânimo (464—424 a.C.). Em 444 a.C. Artaxerxes era o mesmo rei persa que havia delegado poderes a Esdras a fim de que voltasse para Jerusalém (Ed 7.1).

 

A cidadela de Susã ficava a cerca de 240 Km ao norte do Golfo Persa, atualmente o Irã. A fortaleza, ou o palácio real fortificado, foi construída sobre uma acrópole. A cidade servia como uma residência de inverno para os monarcas da Pérsia. Susã é famosa também na história bíblica como o lugar no qual Daniel recebeu a visão do carneiro e do bode (Dn 8.2) e como o lar de Mordecai e Ester (Et 1.2).

 

1.2 — Hanani, irmão de Neemias (Ne 7.2), tinha visitado Jerusalém e retornado para Susã. Essa viagem, que abrangeu quase 1.600 Km só de ida, teria levado, pelo menos, quatro meses. Esdras e sua caravana levaram quatro meses na viagem de ida e volta da Babilónia para Jerusalém (Ed 7.9). Neemias estava preocupado com o povo judeu e com Jerusalém.

 

1.3 — A vida era difícil para o povo em Jerusalém, em grande parte, devido às condições do muro da cidade. No antigo Oriente Médio, o muro de uma cidade fornecia proteção aos habitantes e, conforme criam, era um sinal da proteção do deus (ou deuses) cultuado (s) por aquele povo. Logo, o estado arruinado do muro de Jerusalém envergonhava o nome de Deus.

 

1.4 — Chorei e lamentei. Neemias estava profundamente abalado; afinal, sem um muro, Jerusalém ficava vulnerável a ataques. As riquezas do tesouro do templo (Ed 8.15-36), por exemplo, seriam uma tentação para os inimigos de Israel. Deus dos céus. Esta expressão para o Altíssimo é muitas vezes usada nos livros de Esdras e Neemias.

 

1.5 — Senhor. Neemias clamou a Deus usando Seu nome relacionado ao concerto com Israel (Ex 6.2-9). A utilização desse título por parte de Neemias é similar ao uso que fazemos da frase em nome de Jesus em nossas orações. Deus dos céus. Neemias reconhecia o governo de Deus sobre o mundo, incluindo Sua soberania sobre o rei pagão que estava sobre Neemias, o povo judeu e a cidade de Jerusalém. Concerto e benignidade. Ao usar essas duas palavras juntas, Neemias estava lembrando o Senhor das Suas promessas. O Todo-poderoso havia firmado Seu caráter na Sua lealdade demonstrada no concerto estabelecido com o Seu povo. De acordo com os termos da aliança (Dt 28; 29), Deus tornou as bênçãos disponíveis apenas àqueles que cumprissem os mandamentos dele.

 

1.6 — Estejam, pois, atentos os teus ouvidos, e os teus olhos, abertos. Neemias pediu a Deus que olhasse para ele e ouvisse-o enquanto orava. A intenção dessas palavras era encorajar aquele que estivesse orando, pois o Senhor não cerra Seus ouvidos nem Seus olhos para o Seu povo (Êx 2.23-25).

 

Filhos de Israel. Ao usar essa expressão em relação ao povo judeu, Neemias ressaltou a continuidade do povo judeu de sua época com os israelitas do passado. Ele, então, confessou os pecados da casa de seu pai, assim como os da sua própria casa. Sua confissão foi nacional, pública e pessoal. Seu próprio pecado fazia parte de um todo.

 

1.7 — Israel havia pecado contra o Senhor e contra os Seus mandamentos. Ao usar o pronome nos, Neemias se incluiu entre o povo pecador. Mandamentos, estatutos e juízos. Essas expressões descrevem a totalidade da Lei divina (Ne 9.13,14).

 

1.8 — Lembra-te. Depois de confessar tanto o seu pecado quanto o do povo, Neemias lembrou o Senhor acerca do que Ele mesmo tinha dito. Eu vos espalharei entre os povos. Essa é uma alusão ao concerto de Deus em Levítico 26.27-45 e Deuteronômio 30.1-5.0 próprio Neemias havia nascido na Pérsia, uma nação distante, porque o Altíssimo tinha cumprido essa promessa.

 

1.9 — O Senhor havia prometido que, se os israelitas se voltassem para Ele em obediência, o Altíssimo iria ajuntá-los mais uma vez na terra deles. Neemias se dirigiu ao Senhor como o Deus que mantém o concerto e confessou os seus pecados e os do povo, porque a Lei exigia confissão (Lv 16.21). Então, lembrou o Todo-poderoso de Sua promessa: fazer com que Israel retornasse para sua terra.

 

E os trarei ao lugar que tenho escolhido para ali fazer habitar o meu nome. A última intenção do concerto divino não era apenas fazer o povo regressar, mas fazê-lo voltar ao lugar onde o Altíssimo estabelecera Seu nome. Para que isso acontecesse, muito precisava ser feito. Então, mesmo sendo verdade que algumas pessoas tinham retornado para a terra e que o templo tinha sido reconstruído, permanecia o fato de que o muro de Jerusalém estava em ruínas e o povo estava sob repreensão (Ne 5.9). Nesse sentido, Jerusalém ainda não tinha sido restaurada.

 

1.10 — Teus servos e o teu povo. Ao utilizar essa frase, Neemias estava sugerindo ao Senhor que a época era propícia, o povo estava preparado e o trabalho de restauração de Jerusalém era justo. Tua forte mão é uma das expressões associadas com a libertação, da parte de Deus, de Israel do Egito (Êx 6.1; 13.14; 15.6; Dt 6.21).

 

1.11 — Teu servo e Teus servos. Neemias e o povo santo de Israel compartilhavam interesses comuns diante do Altíssimo.

 

Faze prosperar hoje o teu servo. Neemias, apesar de desfrutar do conforto de um palácio real e de uma posição de honra e responsabilidade, pediu ao rei permissão para regressar a Jerusalém, a fim de reconstruir o muro e restaurar a comunidade. Havia várias razões convincentes para ele permanecer em Susã, mas, mesmo assim, pediu a Artaxerxes que autorizasse seu trabalho na obra de Deus. Como copeiro do rei, Neemias tinha uma posição respeitada, e sua proximidade constante com o governante da Pérsia fazia com que ele ficasse a par dos segredos de estado e dos assuntos pessoais do governante.

 


 

2.1 — Nisã corresponde a março-abril em nosso calendário. Triste diante dele. Quatro meses depois de ouvir o relatório de seu irmão Hanani sobre Jerusalém, Neemias ainda estava sofrendo por causa das condições da cidade.

 

2.2 — O rei percebeu a expressão melancólica de Neemias e concluiu que esta era causada pela tristeza de coração — e não por doença física. Temi muito em grande maneira. Os monarcas persas acreditavam que sua presença era suficiente para qualquer pessoa ficar feliz. Ainda assim, Neemias estava pronto para pedir que o imperador permitisse sua ida a Jerusalém, sugerindo que preferia outro lugar a estar na presença do rei. Além de tudo, foi o próprio Artaxerxes quem, anteriormente, ordenou a paralisação dos trabalhos no muro (Ed 4.21-23). Neemias tinha motivos para temer.

 

2.3 — Viva o rei para sempre. Ao dirigir-se ao governante com o devido respeito, Neemias contou sobre o fardo que tinha em seu coração. O lugar dos sepulcros de meus pais. É possível que esta frase tenha sido dita para chamar a atenção do rei. Em várias culturas asiáticas, o vínculo com os lugares em que os ancestrais de alguém eram sepultados era assunto de grande importância.

 

2.4 — O rei. Neemias, embora estivesse diante do rei, nunca deixou de estar na presença do verdadeiro Rei dos reis.

 

2.5 — Após sua oração silenciosa (v. 4), Neemias falou ousadamente, pedindo permissão para deixar o palácio real e viajar para Jerusalém, a fim de reconstruir o muro da cidade. Mais uma vez, ele mencionou os sepulcros de seus pais (v. 3). Apesar de não ter sido essa a sua principal preocupação, provavelmente foi algo que ele pensou ser importante para o rei.

 

2.6 — A rainha. Por citá-la, é possível que Neemias achasse a presença desta importante na decisão do governante. Talvez ela demonstrasse boa vontade em relação a Neemias e ele tivesse esperado por uma oportunidade em que a rainha estivesse presente (v. 1).

 

Quanto durará a tua viagem, e quando voltarás.’ Em resposta ao pedido de Neemias (v. 5), Artaxerxes poderia ter mandado executá-lo imediatamente ou despedido o copeiro achando engraçada tal situação. No entanto, suas perguntas indicavam que o pedido já havia sido atendido. Apontando-lhe eu um certo tempo. O fato de Neemias ter respondido rapidamente ao pedido com detalhes específicos indica que ele estava planejando a viagem.

 

E aprouve ao rei enviar-me. O rei não só enviou Neemias a Jerusalém como fez dele governador (Ne 5.14). Com a possibilidade de um tumulto no Egito e no Chipre, o rei pode ter decidido que, afinal de contas, Jerusalém precisava de um muro (Ed 4.21).

 

2.7 — Neemias sabia que precisava de um salvo-conduto para sua viagem a Judá. Então, solicitou ao rei cartas para apresentar aos governadores dalém do rio Eufrates.

 

2.8 — Os planos de Neemias eram detalhados: ele pediu ao rei permissão para ir para Jerusalém (v. 5), cartas de salvo-conduto para apresentar aos governadores dalém do rio (v. 7) e, ainda, provisões. Ele requisitou uma carta endereçada a A safe, o homem responsável pelo jardim do rei, a fim de que ele pudesse obter material para três projetos: (1) as vigas das portas da cidadela do templo; (2) o muro da cidade e (3) a sua própria casa. Jerusalém possuía muita pedra calcária para edificações, mas a madeira necessária para tetos e outras partes de grandes projetos de construção era escassa. A cidadela era uma fortaleza situada a noroeste do templo, de onde se podia contemplar e proteger a área do templo.

 

Segundo a boa mão de Deus. O rei, graciosamente, concedeu ao seu servo tudo o que ele havia pedido, mas este sabia que a principal Fonte de suas provisões era Deus.

 

2.9 — Chefes do exército e cavaleiros. Neemias recebeu escolta militar durante seu regresso a Jerusalém. Em 458 a.C., Esdras, que tinha viajado para esta cidade com 1.800 pessoas levando valiosos tesouros, havia recusado uma proteção do exército (Ed 8.22). Porém, 14 anos mais tarde, Neemias fez a mesma viagem com um grupo menor e sem transportar nenhum objeto valioso, mas, mesmo assim, Artaxerxes enviou-lhe uma escolta.

 

2.10,11 — Como Neemias regressou a Jerusalém com uma carga menor do que a que Esdras transportou em sua viagem, supõe-se que ele tenha feito o caminho mais curto de Susã para Tadmor atravessando Damasco e seguindo, então, pelo vale do Jordão para Jericó. Ele e seu grupo teriam, portanto, evitado a comunidade samaritana e chegado a Jerusalém sem nenhuma oposição. Se esta foi a intenção deles, não funcionou. Sambalate era o governador de Samaria, e horonita refere-se a Bete-Horom, sua cidade. Tobias talvez fosse secretário e conselheiro particular de Sambalate.

 

Amonita. Na época de Neemias, os amonitas (Gn 19.38) tinham avançado para o oeste na terra deixada desocupada por Judá. A possibilidade de uma comunidade judaica forte em uma nova Jerusalém fortificada pareceu algo ameaçador para o domínio amonita.

 

2.12-15 — Como Neemias chegou a Jerusalém vindo do norte, ele teria avistado aquele lado do muro ao aproximar-se da cidade. Se ele vivia na área sudoeste dela, teria tido tempo suficiente para observar o muro ocidental. Neemias parece ter ficado preocupado com a inspeção dos muros sul e oriental de Jerusalém e, com alguns poucos servos, atravessou a Porta do Vale para o vale de Hinom. Então, andou ao longo do muro sul. Quando as pilhas de pedra e os montes de entulho obstruíram sua passagem, ele desmontou de seu animal e continuou o trajeto a pé até ao vale de Cedrom a fim de observar o muro oriental.

 

2.16 — E não souberam os magistrados. As únicas pessoas que tinham conhecimento dos planos de Neemias eram os poucos homens que com ele haviam feito a secreta viagem noturna (v. 12).

 

2.17 — Neemias encorajou todo o povo a ajudar na reconstrução dos muros da cidade.

 

2.18 — Neemias enfatizou que não era sua a ideia de reconstruir o muro de Jerusalém. Antes, o plano chegou até ele vindo do Senhor (v. 8,12). Em resposta ao desafio deste servo de Deus, o povo declarou: Levantemo-nos e edifiquemos.

 

2.19 — No versículo dez, Neemias menciona dois homens que estavam descontentes com a sua chegada: Sambalate e Tobias. Aqui, o número de opositores aumenta para três. Gesém era o líder de uma companhia de tropas árabes mantida por Sambalate. No versículo dez, os oponentes de Neemias estavam sofrendo; aqui, eles zombaram e acusaram Neemias de ter falsos motivos e de tramar uma rebelião contra o rei. A mesma acusação havia sido feita contra o povo judeu na época de Zorobabel (Ed 4).

 

2.20 — Neemias ignorou seus adversários — quando estes o acusaram de rebelar-se contra o rei — e afirmou que Deus estava envolvido no seu trabalho. O motivo de Neemias não era a rebelião contra Artaxerxes, mas a submissão ao Senhor.

 

Vós não tendes parte. Neemias ressaltou que os samaritanos e os estrangeiros não tinham lugar em Jerusalém (Ed 4-3).


 

3.1-32 — Este capítulo, que narra o trabalho do povo para reconstruir os muros de Jerusalém, divide-se em quatro partes: (1) reconstruindo o lado norte (v. 1-7); (2) reconstruindo o lado ocidental (v. 8-13); (3) reconstruindo o lado sul (v. 14); (4) reconstruindo o lado oriental (v. 15-32). As abordagens de estudo deste capítulo variam. Há leitores que passam rapidamente por ele; outros o usam para o estudo detalhado da topografia de Israel, já que essa passagem fornece as mais detalhadas especificações do muro na Bíblia. Alguns fazem a abordagem da espiritualização das portas. Por exemplo, a Porta do Gado (ou Porta das Ovelhas, ARA) representaria a cruz, onde Cristo, o Cordeiro de Deus, morreu pelos pecados do mundo; a Porta do Peixe lembra a alegoria da declaração de Cristo: Eu vos farei pescadores de homens, indicativo de ganhar almas (Mt 4-19b), e assim por diante. No entanto, um ponto principal desse capítulo, que não pode passar despercebido, é que o povo simplesmente arregaçou as mangas e pôs-se a trabalhar. Neemias não é mencionado nem mesmo uma vez no capítulo inteiro, mas os demais trabalhadores são citados pelo nome. O termo hebraico traduzido como edificar aparece sete vezes e, como reparar, 35 vezes. Muitas outras palavras e frases relacionadas à construção também são empregadas. O principal é que o povo construiu o muro e trabalhou arduamente, como disse que faria (Ne 2.18).

 

3.1 — Eliasibe, o sumo sacerdote, e os outros sacerdotes foram os primeiros a iniciarem a reconstrução dos muros de Jerusalém. Nessa época, não havia reis nem juizes em Israel, e eram os sacerdotes que lideravam o povo. Inclusive eles e o sumo sacerdote construíram a Porta do Gado, a qual ficava no lado nordeste de Jerusalém, ao norte do templo, e era usada para levar as ovelhas ao templo, a fim de serem sacrificadas. Consagraram. Os sacerdotes dedicaram ao Senhor a porta, o muro e a torre reparados. Eles sabiam que, a menos que Deus abençoasse a cidade com a Sua presença, nenhum muro ou nenhuma porta manteria o povo em segurança (SI 127.1).

 

3.2-4 — Ao seu lado. O povo trabalhava junto - não apenas no mesmo lugar, mas em cooperação.

 

3.5-7 — Deus prestou atenção também naqueles que não trabalharam.

 

3.8-13 — Esses versículos detalham a reconstrução do lado ocidental do muro de Jerusalém.

 

3.8 — O Muro Largo foi construído por Ezequias, provavelmente no século 7 a.C., para acomodar o fluxo de refugiados provenientes da queda de Samaria em 722 a.C. (2 Cr 32.5).

 

3.9-14 — Esses versículos descrevem a reconstrução do lado sul do muro de Jerusalém.

 

3.15-32 — Esses versículos detalham a reconstrução do lado oriental do muro de Jerusalém.

 

3.15 — A Porta da Fonte possivelmente se situava de frente para a fonte de En-Rogel. O viveiro de Selá é conhecido também como o tanque de Siloé.

 

3.16-20 — Com grande ardor traduz o verbo hebraico heherâ, que significa queimar. Em outras palavras, Baruque tinha um zelo ardente por seu trabalho. Ele é a única pessoa de quem se faz tal afirmação.

 

3.21-28 — Na região mais oriental da cidade, a Porta dos Cavalos era a que levava ao vale de Cedrom.

 

3.29-32 — Os ourives e os mercadores também trabalharam no muro, apesar de não serem pedreiros.


Neemias 4

4.1 — Ardeu em ira, e se indignou. Como se Sambalate acendesse a ira.

 

4.2 — Sambalate reuniu os homens do exército de Samaria, sua milícia local, e, então, debochou do povo judeu com perguntas sarcásticas. Estes fracos judeus: o verbo do qual o adjetivo fraco é derivado é usado em relação a mulheres que não podem mais ter filhos (1 Sm 2.5), a um pescador cuja pescaria falha (Is 19.8) e aos habitantes de uma terra derrotada (Os 4.3).

 

Sacrificarão? Acabá-lo-ão num só dia? Vivificarão dos montões do pó as pedras que foram queimadas? Sambalate vertia desprezo sobre o povo judeu e seu Deus. Ao falar sobre vivificar as pedras, ele faz referência ao fato de que as pedras do antigo muro haviam sido queimadas. Quando a pedra calcária é submetida a calor intenso, tornase inadequada para a construção.

 

4.3 — Tobias, o ajudante de Sambalate (Ne 2.10,19), levou a zombaria (v.2) deste ainda mais além. Tobias declarou que, se uma pequena criatura, como uma raposa, pulasse no muro, ele cairia devido à sua frágil construção.

 

4.4,5 — Neemias não respondeu aos seus oponentes (v.2,3). Em vez disso, orou para que o Senhor os perdoasse. Ele acreditava que, quando o povo de Deus estivesse envolvido no trabalho divino, qualquer ataque contra ele seria uma afronta a Deus. Nesse caso, desprezar os trabalhadores judeus era ignorar o próprio Senhor.

 

4.6 — Neemias voltou a trabalhar imediatamente, e o povo, cujo coração se inclinava a trabalhar, acompanhou-o.

 

4.7,8 — Como o sarcasmo dos oponentes de Neemias não interrompeu o trabalho no muro, eles tentaram uma ameaça de ataque. A princípio, a oposição partiu de duas pessoas (2.10) e aumentou para três (2.19). Posteriormente, uma multidão cercou Jerusalém. Sambalate era sarnaritano. Samaria localizava-se ao norte de Jerusalém. Os arábios eram do sul, e os amonitas, do oriente. Já os asdoditas provinham do ocidente.

 

4.9 — Antes desse versículo, as orações registradas no livro de Neemias são individuais. Esta foi uma oração em grupo. O espírito de Neemias havia afetado o grupo inteiro de trabalhadores, os quais não só oraram como também colocaram uma guarda e fizeram o que era humanamente possível para se protegerem de ataques.

 

4.10 — Nessas circunstâncias, alguns dos trabalhadores se sentiram desencorajados. A construção do muro estava pela metade (v.6), mas a tarefa estava sendo executada. As palavras dos cansados acarretadores são como uma canção ou um poema no texto hebraico.

 

4.11,12 — Enquanto os trabalhadores judeus se desencorajavam (v. 10), a oposição intensificava-se. Os adversários deram início a uma campanha silenciosa entre o povo judeu para interromper a construção do muro. Esses inimigos usaram o medo como arma e o povo judeu para fazer seu trabalho sujo.

 

4.13 — Pus guardas. Como não existia um exército judeu, o povo tinha de defender-se de outro modo. Neemias posicionou estrategicamente homens no muro. Dos lugares altos, eles podiam avistar a aproximação inimiga. Outros defendiam os lugares baixos do muro.

 

4.14,15 — Aos nobres, e aos magistrados, e ao resto do povo. A estratégia de Neemias era direcionada tanto aos líderes quanto aos leigos. Dessa forma, toda a comunidade tomaria posse dos mesmos ideais.

 

Pelejai pelos vossos irmãos. Neemias lembrou aos judeus que eles não eram soldados mercenários ganhando salários ou esperando por despojos. Não só a vida desses estava em perigo, como a de seus queridos também. Deus respondeu às orações de Neemias, e o povo, sentindo-se inspirado por suas palavras sábias, voltou às suas atividades.

 

4.16-18 — Neemias equipou os trabalhadores e dividiu seus próprios moços em dois grupos: uma metade trabalhava no muro; a outra ficava de guarda. Como precisavam das duas mãos para trabalhar, as espadas deles ficavam penduradas na cintura. Os que carregavam os cestos de entulho na cabeça seguravam suas armas com uma mão e, com a outra, apoiavam a carga.

 

4.19,20 — Neemias instituiu um sistema de alarme para aqueles que trabalhavam no muro. Aparentemente, os trabalhadores ficavam espalhados pela extensão do muro e tão separados uns dos outros que a voz de um não alcançava o outro. Por essa razão, um tocador com uma trombeta de chifre acompanhava Neemias aonde quer que ele fosse. Caso o muro fosse atacado, o alarme reuniria rapidamente todo o povo no lugar de perigo. O nosso Deus pelejará por nós. Essas palavras despertaram o espírito do êxodo (Nm 10.1-10). O Altíssimo havia lutado por seus ancestrais e, agora, lutaria por eles.

 

4.21-23 — Neemias instituiu um plano de trabalho e de guarda de 24 horas. O povo trabalhava durante o dia e ficava de guarda à noite. Os trabalhadores que moravam fora da cidade foram solicitados a permanecerem nela, ao invés de voltarem para casa. A não ser para se lavarem, Neemias e seus homens nunca tiravam suas vestes. Eles trabalhavam dia e noite. O capítulo quatro ilustra três tipos de oposição a Neemias e ao povo de Jerusalém: oposição pela zombaria, pela ameaça de ataque e pelo medo. Neemias ignorou a zombaria; ele orou e persistiu. Enfrentou a ameaça com oração e pôs homens de guarda. Ele lidou com o medo apontando para o Senhor e preparando o povo para a batalha. Sua abordagem poderia ser concomitantemente expressa em duas palavras: oração e persistência.

 


5.1-5 — O prolongado período de trabalho, vigília, medo e cansaço causou, inevitavelmente, problemas entre o povo em Jerusalém. Existiam três grupos de queixosos, cada qual apresentado por meio da frase havia quem dizia. O primeiro grupo possuía famílias grandes e não dispunha de comida suficiente. O segundo tinha altas hipotecas a pagar e não podia comprar alimento. O terceiro precisava pagar altos impostos e foi forçado a hipotecar sua terra e, até mesmo, a vender seus filhos. A fome, a carência, os impostos e o dinheiro, apesar de serem resultados imediatos das circunstâncias do povo, não eram a raiz do problema. A dificuldade maior do povo está identificada nas palavras contra os judeus, seus irmãos. Os judeus não se queixavam apenas da pobreza e dos altos impostos; estavam reclamando uns dos outros. No versículo 1, o povo refere-se ao pobre; os irmãos, aos nobres (v.7). Resumindo, havia uma luta de classes. O menos favorecido financeiramente havia hipotecado suas terras, vinhas e casas, tomado dinheiro emprestado e, até mesmo, vendido seus filhos e suas filhas como escravos. De acordo com a Lei, aí existiam dois problemas: (1) usura, empréstimo de dinheiro e cobrança de juros; (2) escravidão. Não era errado um judeu emprestar dinheiro com juros a um não judeu (Dt 23.19,20), como também não o era emprestar dinheiro a outro judeu. No entanto, a Lei proibia a usura (Ex 22.25). As taxas de juros eram exorbitantes e, facilmente, podiam levar alguém à pobreza e à escravidão — o que acarreta um segundo-problema. De acordo com a Lei mosaica, um judeu podia alugar seus serviços a outra pessoa, mas não como um escravo (Lv 25.35-40).

5.6 — Muito me enfadei (aborreci). A primeira reação de Neemias aos pecados do povo judeu foi de raiva. A desobediência deliberada à Palavra de Deus devia deixar alguém indignado contra o pecado, mas não contra o pecador.

5.7-10 — Depois de aborrecer-se com os pecados dos judeus (v.6), Neemias passou um tempo considerando com ele mesmo e, então, confrontou os culpados.

O termo pelejei (repreendi, ara) é muito usado pelos profetas para falar de casos legais contra os culpados (Ne 13.11). Depois de repreender as partes culpadas separadamente, Neemias as confrontou em público com as mesmas acusações. Não é bom. Aqui, duas atitudes estão em jogo — o temor de Deus (Ne 1.5) e o opróbrio dos gentios. Quando Israel, uma nação chamada pelo Senhor, parou de honrá-lo e obedecer-lhe, foi um escândalo, pois o nome de Deus havia sido desonrado.

5.11,12 — Neemias desafiou os líderes a restituir o que eles tinham tomado com juros. O centésimo do dinheiro é provavelmente uma referência ao juro que eles estavam cobrando.

5.13 — Neemias sacudiu o seu regaço como se quisesse livrar-se do que estava carregando. Ao fazê-lo, dramatizou o que o Altíssimo faria se o povo quebrasse a Sua promessa: Deus os sacudiria para longe de suas casas e de seus bens.

5.14-19 — Essa parte resume a época de Neemias como governador. O que ele fez, como registrado aqui, contrasta com o que os nobres haviam feito anteriormente (v. 1-13). Eles tinham sido egoístas, enquanto Neemias foi altruísta. Eles queriam tirar proveito do que pudessem; ele queria dar o que pudesse. Eles estavam pensando neles próprios; Neemias aguardava em Deus e em Seu povo. Ele contrasta o temor que tinha de Deus (v. 15) com a falta deste sentimento por parte dos nobres (v. 9). Também avalia seu comportamento com o dos governadores que o precederam (v. 15). Ele não chegou com o intuito de servir a si mesmo (v. 16), mas de servir aos outros (v. 17). Sua mesa estava repleta de alimento e vinho maravilhosos (v.18), mas não à custa dos outros. Aliás, ele cuidou para não usar as provisões que pudesse ter exigido do povo como seu governador (v. 14,18), pois sabia que os problemas que os judeus tinham já eram muitos. Enfim, o que ele desejava era o sentimento de regozijo de Deus (v. 19).

5.14 — Durante os 12 anos em que administrou Jerusalém (444—432 a.C.), Neemias não recolheu impostos do povo, embora como governador tivesse esse direito.

5.15 — Muitos governadores anteriores pagaram suas despesas pessoais com os impostos dos judeus. Eles oprimiram o povo. Os governadores antes de Neemias tinham dificultado a vida para o povo. Dominavam indica um governo arbitrário e opressor, com abuso de poder por meio de extorsão.

5.16-18 — Neemias não adquiriu hipotecas na terra. Ele poderia ter obtido bens imóveis facilmente e vendido tudo com um grande lucro. Porém, em vez de ganharem dinheiro para eles próprios, Neemias e seus servos trabalharam no muro de Jerusalém para a proteção do povo e a glória de Deus.

5.19 — O motivo de Neemias era claro: ele não estava fazendo o bem para dar glória aos homens, mas para agradar a Deus. Sua oração se repete no final do livro (Ne 13.31).


6.1,2 — Os inimigos de Neemias, percebendo que a oposição às claras não tinha funcionado e que a obra estava perto de ser concluída, sugeriram uma reunião. O vale de Ono situava-se a cerca de 30 Km a noroeste de Jerusalém. De alguma forma, talvez por uma palavra vinda do Senhor, Neemias foi avisado das intenções de seu adversário.

6.3-6 — Uma carta aberta: naquela época, uma correspondência endereçada a um líder deveria ser dobrada em uma bolsa de seda e selada. Além disso, teria de ser aberta apenas pela pessoa a quem ela tivesse sido enviada. A carta aqui, no entanto, teve exibição pública. Nela, o povo judeu foi acusado de querer rebelar-se.

6.7 — A evidência usada para acusar Neemias de rebelião foi uma afirmação de que os profetas tinham proclamado Neemias rei. Zacarias havia profetizado a chegada de um rei (Zc 9.9). Com toda a atividade de reconstrução do muro, o povo poderia estar falando sobre o que Zacarias tinha declarado. Os inimigos de Neemias ameaçaram levar o assunto ao rei da Pérsia, usando essa ameaça como alavanca para forçar Neemias a atender o encontro proposto. Embora verdadeiramente não tivessem nenhuma intenção de dirigir-se ao rei (Ne 6.9), os opositores esperavam que suas ameaças arruinassem a reputação de Neemias e, assim, os trabalhadores perdessem sua determinação.

6.8,9 — Neemias não se permitiria desviar do seu objetivo. Ao contrário, entregou ao Senhor as acusações de seus inimigos (SI 31.13,14). Seus adversários queriam enfraquecê-lo; então, ele orou a fim de que Deus o fortalecesse.

6.10 — Obviamente, Semaías era um sacerdote. Com a visita de Neemias, propôs ao governador que eles entrassem no Lugar Santo para se protegerem de assassinos. Sua sugestão foi que Neemias fugisse para dentro do santuário. Era legal para um israelita procurar refúgio junto ao altar do lado de fora do templo (Ex 21.13,14), mas apenas o sacerdote podia entrar no Lugar Santo. Os inimigos de Neemias estavam tentando- o sutilmente. Se pudessem fazê-lo cair em pecado, Neemias e seu trabalho ficariam desacreditados. Então, o povo deixaria de segui-lo, e o trabalho no muro seria interrompido.

6.11-16 — Deus concedeu a Neemias sabedoria para discernir o erro no conselho de Semaías. Tobias e Sambalate eram os principais instigadores por trás de Semaías. Neemias, com indignação, rejeitou o conselho do sacerdote por duas razões: primeiro, porque um homem como ele não deveria fugir. Neemias era o governador, um líder do povo. Ele tinha responsabilidades para com o rei e, principalmente, para com o Rei dos reis. Uma pessoa de sua posição não poderia fugir nem esconder-se com medo. Segundo, Neemias recusou-se a ir ao templo para salvar a sua vida porque a Lei o proibia de entrar no Santo dos Santos sob pena de morte (Nm 18.7).

6.17-19 — Aqui temos uma nota de acréscimo. Parece que, durante a construção do muro, várias cartas pessoais tinham sido trocadas entre alguns nobres de Judá e Tobias. Este e seu filho Joanã tinham casado com mulheres judias. Alguns dos nobres contavam as bondades de Tobias a Neemias e, então, relatavam a Tobias tudo o que ficavam sabendo do governador. Com essas cartas, eles esperavam apanhar Neemias em uma armadilha com suas próprias palavras ou intimidá-lo.

 


7.1 — Os levitas eram auxiliares dos sacerdotes (Nm 18.1-4) e tinham a função de guardar e limpar o santuário, serviços para os quais Neemias os estabeleceu. Dentre eles, os porteiros e os cantores foram contados. Os porteiros ficavam de guarda na casa de Deus e abriam e fechavam as portas do pátio do templo (1 Cr 9.17-19; 26.12- 19). Já os cantores guiavam o povo em sua adoração musical a Deus. O número de levitas, porteiros e cantores é dado em Neemias 7.43-45.

7.2 — Neemias indicou dois guardas sobre a cidade como oficiais municipais, cada qual responsável pela segurança de metade de Jerusalém (3.9-12). Um deles era Hanani — irmão de Neemias —, que tinha visitado em salém e levado de volta um relatório desanimador para Neemias em Susã (Ne 1.2). O outro era Hananias, o qual foi posto por Neemias sobre a cidadela por ter sido fiel e temente a Deus. Fiel (hb. um homem de verdade) significa firme, confiável. Hananias era um homem que temia o Senhor, o que significa que ele conhecia o Altíssimo e andava com Ele. O temor de Deus receia o Seu descontentamento, deseja o Seu favor, reverencia a Sua santidade, submete-se alegremente à Sua vontade, é grato por Seus benefícios, adora o Senhor com sinceridade e obedece conscientemente aos Seus mandamentos.

7.3 — Neemias não apenas instituiu guardas sobre Jerusalém (v.2), como também estabeleceu diretrizes para a proteção da cidade. As portas da cidade geralmente abriam ao nascer do sol, mas Neemias ordenou que elas permanecessem fechadas até que o sol estivesse a pino. Essa precaução extraordinária teria desencorajado os inimigos de preparar um ataque surpresa ao nascer do sol. As portas eram críticas para a defesa de uma cidade antiga. Neemias também ordenou que os cidadãos de Jerusalém organizassem uma defesa civil, com o povo fazendo escalas de guarda à noite do lado de fora das próprias casas. Essa foi uma estratégia inteligente. O povo ficaria mais alerta ao vigiar suas próprias residências do que ao guardar uma área qualquer da cidade.

7.4 — Para a extensão da cidade, Jerusalém não estava suficientemente povoada. Mesmo que já tivessem passado 90 anos desde que o povo tinha retornado com Zorobabel para viver lá, ainda existia muita área desabitada dentro dos muros renovados por Neemias.

7.5 — O meu Deus me pôs no coração. Neemias atribuiu ao Senhor a ideia de um censo que apresentaria a distribuição populacional. Se ele conhecesse a configuração da população na capital e na zona rural, seria possível, então, determinar quais distritos poderiam perder uma parte de seus habitantes para Jerusalém.

7.6-73 — Neemias descobriu uma lista, registrada por famílias, dos nomes do povo judeu que, com Zorobabel, voltou da Pérsia para Judá em 536 a.C. Essa extensa listagem consiste de nomes de líderes (v. 7), pessoas por família (v. 8-25) e por cidades (v. 26-38),sacerdotes (v.39-42),levitas (v.43-45) e netineus, ou servidores do templo (v. 46-56), bem como dos servos de Salomão (v. 57-60), dos que retornaram sem uma genealogia (v. 61 -65), do número total do povo (v.66,67), dos animais (v. 68,69) e dos presentes oferecidos para o sustento do trabalho (v.70-72). Essa mesma relação é encontrada em Esdras 2, com pequenas variações.

7.70-73 — Mil daricos de ouro pesariam cerca de quatro quilos.


8.1 — A frase todo o povo indica a reunião de todas as cidades e da zona rural de Judá. A praça, provavelmente, localizava-se entre a área sudeste do templo e o muro oriental. O líder — nesse caso, o escritor — era Esdras. Essa é a primeira vez que o escriba é mencionado no livro de Neemias. O povo instruiu Esdras a pegar o Livro da Lei, o qual ele havia levado para Jerusalém 13 anos antes. O que era restrito ao estudo particular entre homens instruídos tornou-se público para todos.

 8.2 — Nas Escrituras, geralmente as mulheres estão implicitamente presentes nas reuniões de grupos; aqui, elas são mencionadas explicitamente. Todos os sábios para ouvirem. Crianças com mais idade, assim como adultos, reuniram-se no primeiro dia do sétimo mês. O muro havia sido concluído no vigésimo quinto dia do sexto mês (Ne 6.15); então, esse evento aconteceu apenas poucos dias após a conclusão da obra.

 8.3 — Desde a alva até ao meio-dia. Um período de cerca de seis horas.

 8.4 — Aparentemente, os homens descritos nesse versículo estavam ao lado de Esdras para ajudálo durante o longo período que durou a leitura.

 8.5 — Quando Esdras abriu o livro, todo o povo se pôs em pé, representando sua reverência pela Palavra. Esse gesto, tempos depois, tornou-se característico dos judeus nas cerimônias realizadas nas sinagogas.

 8.6,7 — Antes de ler o Livro da Lei, Esdras guiou o povo em oração. Louvou significa que Esdras identificou Deus como fonte de bênçãos para o povo (SI 103.1). O povo respondeu amém e levantou as mãos, indicando participação com Esdras na oração. Então, os judeus inclinaram a cabeça e adoraram o Senhor com o rosto em terra, um ato de submissão voluntária ao seu Senhor e Criador.

 8.8 — Eles leram, declarando. Os levitas explicaram completamente o significado da Lei de Deus. Explicando o sentido. Os levitas explicaram a Lei de forma que o povo depreendesse o sentido e obtivesse o discernimento do que estava sendo lido.

 

8.9-11 — Uma vez que o povo compreendeu a Palavra de Deus, chorou. Ouvindo os altos padrões da Lei e reconhecendo sua baixa posição diante do Senhor, os judeus se converteram. N e emias, Esdras e os levitas estavam, sem dúvida, alegres em ver a convicção do povo. Mas, mesmo assim, encorajaram-no a parar de chorar e lembraram que aquele dia era consagrado ao Senhor. No primeiro dia do sétimo mês (v.2), era realizada a Festa das Trombetas. Não era tempo de chorar, mas de celebrar. O povo foi instruído a celebrar a festa comendo, bebendo e compartilhando. A alegria do Senhor podia referir-se à alegria que Deus tem, mas o contexto indica que é algo que o povo experimentou. Esse é o sentimento que brota em nosso coração por meio de nosso relacionamento com o Altíssimo. E um contentamento dado por Deus, sentido apenas quando estamos em comunhão com Ele. Quando nosso objetivo é conhecer mais acerca do Senhor, o que obtemos é a Sua alegria. Força significa lugar de segurança, refúgio ou proteção. O lugar seguro do povo era o Todo-poderoso. Os judeus tinham construído um muro e carregado lanças e espadas, mas Deus era a sua proteção.

 8.12 — O povo foi às suas casas para comer e beber, compartilhar e regozijar-se, porque levava no coração as palavras de Neemias, Esdras e dos levitas (v. 1-9). Ele obedeceu à Palavra do Senhor e celebrou a Festa das Trombetas.

 

8.13 — Os cabeças dos pais de todo o povo, os sacerdotes e os levitas voltaram no dia seguinte para ouvirem mais ensinamentos da Palavra de Deus. Atentarem. Até mesmo os líderes se reuniram para entender o sentido das Escrituras e saber como deveriam agir.

 

8.14,15 — Agora, a leitura da Lei havia avançado para Levítico 23. Os ouvintes descobriram que deviam observar a Festa dos Tabernáculos do décimo quinto ao vigésimo segundo dia do sétimo mês. Durante esse tempo, o povo viveria em cabanas feitas de galhos novos de árvores frutíferas e palmeiras. Essas habitações seriam espalhadas nos pátios, nas ruas, nas praças públicas e nos terraços das casas. Nenhum trabalho secular seria realizado durante essa celebração. Essa festa era observada em memória dos ancestrais que viveram em cabanas — tendas — depois do êxodo (Lv 23.40). A cabana não era um símbolo de miséria, mas de proteção, preservação e abrigo.

 

8.16 — O povo observou a Festa dos Tabernáculos de acordo com a Lei. Aqueles que viviam na cidade fizeram cabanas nos terraços de suas casas ou em seus pátios. Os sacerdotes e os levitas montaram suas tendas nos átrios da Casa de Deus. O povo da zona rural fez suas cabanas na rua diante da Porta das Águas e da Porta de Efraim.

 

8.17 — Nunca fizeram assim os filhos de Israel, desde os dias de Josué. Aqui, faz-se uma referência à construção das cabanas. O povo de Israel, certamente, havia celebrado a Festa dos Tabernáculos desde a época de Josué. De fato, aqueles que tinham retornado com Esdras observaram a festa no primeiro ano de seu retorno (1 Rs 8.65; 2 Cr 7.9; especialmente Ed 3.4).

 

8.18 — A leitura da Lei era exigida durante a celebração da Festa dos Tabernáculos, que ocorria no Ano Sabático (Dt 31.10,11).

 


 

9.1 -38 — Esse capítulo é, comprovadamente, um dos mais significantes em toda a Escritura hebraica. Ele apresenta uma narração convincente da história básica do Antigo Testamento, com um foco glorioso na obra do Altíssimo na vida de Seu povo. A passagem não se encerra com história, mas com resposta. Toda compreensão verdadeira da pessoa e da obra de Deus leva a ações de justiça e atitudes de adoração. A maior parte do capítulo (v. 5-38) é frequentemente considerada como uma oração ao Senhor. Se for uma oração, deve ser a mais longa registrada na Bíblia. Mas, em sua forma e em seu conteúdo, assemelha-se mais a um cântico, mostrando afinidades principalmente com os Salmos 105 e 106. O texto não registra quem escreveu tais palavras, mas podemos citar a tradição de que Esdras as escreveu e chamar esse trecho de O Grande Salmo de Esdras.

 

9.1 — Dia vinte e quatro deste mês. A adoração pública do povo tinha começado no primeiro dia do sétimo mês (8.2), e, mais de três semanas depois, o povo ainda estava envolvido nela. Jejum, pano de saco e terra eram sinais tradicionais de luto; aqui eles eram a preparação para a confissão do pecado do povo (v.2).

9.2 — A geração de Israel (ou a linhagem de Israel, ara) significa a semente de Israel. A separação de todos os estranhos era uma separação sagrada dos estrangeiros que adoravam outros deuses e cujas práticas devem ter trazido danos à adoração do Senhor pelo Seu povo. Dos seus pecados e das iniquidades de seus pais. A confissão dos pecados do próprio povo foi para perdão pessoal e coletivo; já a confissão dos pecados de seus pais foi para lembrar que os judeus não podiam continuar praticando as atitudes perversas do passado.

9.3,4 — Como em Neemias 8.5, o povo, em reverência, pôs-se em pé ao ouvir a leitura das Escrituras.

Uma quarta parte do dia. Aproximadamente foram gastas três horas (compare com cap. 8.3) na leitura pública e três horas na adoração coletiva. O povo fez confissão. Esse verbo, quando usado em relação a Deus, como nesse versículo, implica louvor ao Altíssimo.

 

9.5 — Levantai-vos, bendizei ao Senhor, vosso Deus. Essas palavras foram ditas em alta voz pelos levitas.

 

De eternidade em eternidade. O Senhor dos Exércitos será louvado eternamente.

 

O nome da tua glória. A importância do nome de Deus dificilmente pode ser superestimada. Esse cântico é fundamentado na teologia da Lei (os livros de Moisés), como era de se esperar depois de três semanas de leitura das Escrituras (8.1,2). Assim, a exaltação que o poema faz ao nome do Senhor é baseada na revelação de Seu nome pelo próprio Deus, como registrado em Êxodo 3.14. O profeta Isaías também louvou o glorioso nome do Senhor (Is 63.14).

 

9.6 — Um dos ensinamentos fundamentais das Escrituras é que Deus não é um entre outros; só Ele é o Deus vivo (Dt 6.4).

 

O céu [...], a terra [...], os mares. O Todo-poderoso, sozinho, criou todas essas coisas e preserva-as. Toda a adoração é devida apenas a Ele. A primeira parte desse cântico (Ed 9.5,6) estabelece o clima para o poema inteiro: o Senhor é incomparável (Nm 23.8,9; Dt 4-32-40; SI 113.4-6).

 

9.7-31 — Aqui, temos uma exposição da fidelidade do Altíssimo para com o Seu povo, apesar de sua história cheia de altos e baixos. Esse longo trecho é o coração do Salmo, no qual o poeta contrasta dramaticamente a lealdade do Senhor com o triste registro da desobediência de Israel aos Seus mandamentos, a indiferença pelas Suas maravilhas e o desdém pelos Seus atos de correção. Ainda assim, Deus permanece fiel.

 

9.7,8 — Tu és Senhor, o Deus. A ordem das palavras do texto em hebraico é impressionante: “Tu és Ele, Jeová, (o) Deus” . O uso do artigo definido para a palavra Deus destaca-o como o verdadeiro Deus.

 

Abraão. A história da escolha de Abraão começa em Gênesis 12.1-3. O objetivo aqui é enfatizar a graça divina. Abraão não buscou o Senhor. Ao contrário, Deus o buscou.

 

Achaste o seu coração fiel. Todos os personagens bíblicos pecaram, exceto Jesus. Ainda assim, existiram alguns cuja fé no Altíssimo era constante, dentre eles, Abraão e Sara (Hb 11.11,12). A história subsequente do povo de Israel não foi marcada pela fé firme vista em Abraão, para a tristeza do Senhor.

 

A Terra Prometida, a terra dos cananeus, era habitada por diversos grupos de pessoas que perderam o direito à terra por causa da iniquidade que tinham em seu coração (Gn 15.18-21; Ex 3.8,17; 23.23; 33.2; Dt 7.1; Js 3.10). Confirmaste as tuas palavras. Esta é a essência do cântico. A fidelidade de Deus para com o Seu povo não pode ser questionada.

 

És justo. Uma das grandes razões para celebrar o caráter de Deus é Sua conformidade ao Seu próprio padrão de perfeição (v.33).

 

9.9 — O livro de Êxodo narra a situação dos israelitas no Egito e o pedido de libertação que fizeram ao Senhor, além de falar sobre a misericórdia de Deus em Sua resposta às necessidades do povo. Esse versículo sugere que, antes de Israel expressar seu sofrimento, o Altíssimo já conhecia seus problemas.

 

9.10 — Os sinais e prodígios foram as dez pragas narradas em Êxodo 7 — 12. Esses grandes atos divinos foram principalmente dirigidos contra Faraó.

 

Soberbamente. Em Êxodo 18.11, Jetro, sogro de Moisés, usou este mesmo termo para descrever as ações arrogantes do povo do Egito. Foram essas atitudes cheias de orgulho por parte dos egípcios que levaram o juízo de Deus sobre eles.

 

9.11,12 — A expressão e o mar fendeste refere-se às ações divinas de libertação no mar Vermelho (Ex 14; 15). Observe a semelhança das tropas de Faraó afundando como uma pedra (Ex 15.5). Coluna de nuvem e coluna de fogo. A presença contínua do Altíssimo na vida de Seu povo era indicada por estes símbolos (Ex 13.21,22; Nm 10.11,34; Dt 1.33).

 

9.13,14 — O significado do Sábado na Lei de Deus para Israel é celebrado aqui (Ex 20.8-11; 23.10-13; 31.12-18).

 

Pelo ministério de Moisés. A Lei veio do Senhor, mas foi dada por intermédio de Moisés (Jo 1.17).

 

9.15 — As dádivas depão, ou maná (Ex 16.9-35), e água (Ex 17.1-7) demonstravam o cuidado de Deus por Israel na jornada que o povo fez rumo à Terra Prometida.

 

9.16,17 — Porém eles. Essas palavras demonstram um surpreendente contraste com a descrição das ações de Deus nos versículos 9-15. O pecado dos israelitas foi agirem soberbamente — ou seja, comportando-se em relação a Deus da mesma maneira como o Egito se comportou em relação a eles. A principal referência aqui é à revolta de Israel contra o Senhor em Cades (Nm 13; 14). Essa rebelião foi tão longe que os israelitas levantaram um chefe para levá-los de volta ao Egito.

 

Porém tu. Essa expressão contrasta com porém eles, escrita no início do versículo 16 (Ex 34.6). Perdoador significa repleto de perdão. Tardio em irar-te. Essa expressão traduz uma expressão idiomática hebraica longo de nariz, que tem o mesmo significado de demorar a perder a paciência. Beneficência, que quer dizer amor leal, é muito usada no livro de Salmos (SI 13.5). Em virtude da lealdade e constância divinas, o Altíssimo não desamparou o Seu povo.

 

9.18-21 — Nesses versículos, o poeta descreve a fidelidade de Deus para com os israelitas, apesar do comportamento desprezível deles. Bezerro de fundição é uma referência ao ato de rebelião descrito em Êxodo 32. Multidão das tuas misericórdias descreve sentimentos profundos como os de uma mãe para com seu filho.

 

Não deixaste no deserto. O Senhor teria tido razão em abandonar Seu povo por causa de sua rebelião cheia de iniquidade e sem propósito. Porém, ainda assim, Deus foi forçado por Seu caráter a não fazê-lo.

 

E deste o teu bom espírito. O Todo-poderoso não só concedeu bênçãos a Israel; Ele se fez conhecer no meio dele.

 

Quarenta anos no deserto. A experiência no deserto (Dt 2.7) é vista de duas maneiras na Bíblia: (1) como um período de punição prolongada por causa da rebelião; e (2) como um período de misericórdia contínua graças ao caráter imutável de Deus.

 

Vestes e pés. As provisões do Altíssimo eram experiências diárias de milagres divinos (Dt 8.4; 29.5).

 

9.22-25 — O escritor descreve as misericórdias do Senhor sobre Israel na conquista da Terra Prometida e na provisão contínua de Deus ao Seu povo. Reinos e povos. A Bíblia celebra a posse de terra do lado oriental do rio Jordão, assim como a conquista de Canaã.

 

Como as estrelas do céu. O crescimento milagroso do povo é descrito nesta hipérbole familiar (Gn 15.5; 22.17).

 

Entraram nela. A posse da terra, como descrita no livro de Josué, é indicada aqui. Cidades fortes, terra gorda e casas. Com poucas exceções, Israel conquistou os habitantes de Canaã de tal maneira que pôde mudar-se para as cidades e casas intactas dos cananeus. Os israelitas também puderam beneficiar-se das colheitas e dos poços pelos quais não tiveram de trabalhar. Tudo isso é testemunho da grande bondade de Deus.

 

9.26-29 — A rebelião do povo foi expressa durante a época dos juízes e a dos reis. A metáfora lançaram a tua lei para trás das suas costas refere-se à rebelião.

 

Mataram os teus profetas. Jesus também dirigiu essa acusação contra o povo rebelde (Mt 23.31). Pelo que os entregaste na mão dos seus angustiadores faz referência às experiências dos israelitas durante o período descrito pelo livro dos Juízes. O homem que os cumprir viverá. Salvação em qualquer tempo é apenas pela graça mediante a fé (Ef 2.8,9). Cumprir a Lei nunca foi um meio de obter a salvação, mas é um guia para levar uma vida que agrade ao Senhor

 

9.30,31 — Deus permaneceu fiel ao Seu desobediente povo. Por muitos anos refere-se à história de Israel desde Saul até o último dos reis. Teu Espírito, pelo ministério dos teus profetas fala do trabalho do Senhor ao inspirar as palavras dos profetas de Israel (Jr 1.9). Pelo que os entregaste na mão dos povos das terras refere-se ao cativeiro de Israel.

 

Nem desamparaste. Pela terceira vez nesse cântico (v. 17,19), esta realidade é confirmada.

 

9.32-35 — Firmado na contínua misericórdia do Senhor ao longo dos séculos, o poeta, agora, volta-se para a situação atual e pede que a fidelidade do Altíssimo continue a ser experimentada por Seu povo. Essa é uma maravilhosa demonstração do modelo de oração bíblica. Com base nas ações passadas de Deus, o cristão afligido pede, pela fé, Sua contínua misericórdia.

 

9.32 — Aqui, faz-se referência à época do grande avivamento sob a liderança de Esdras (8.1,2). O concerto e a beneficência. A lealdade do concerto divino é inquebrável (Hb 6.17,18).

 

Não tenhas em pouca conta toda a aflição. A vista da inexprimível maravilha de Deus, o sofrimento de Seu povo poderia parecer pequeno demais para ser notado.

 

Reis e povo. Os efeitos dos problemas de Israel afetavam todos.

 

Desde os dias dos reis da Assíria. As incursões dos assírios, começando com Tiglate-Pileser III, iniciaram um período de opressão aos judeus.

 

9.33-35 — Tu és justo. O autor confirma a justiça divina.

 

Tu fielmente te houveste, e nós impiamente nos houvemos. Essa é a realidade básica, não apenas deste capítulo, mas da história de Deus e de Seu povo.

 

9.36,37 — A designação servos é usada aqui como uma ironia. Israel havia sido chamado para ser servo de Deus (Lv 25.55), mas, aqui, os judeus foram servos dos governantes estrangeiros. O produto da terra não lhes pertencia; era destinado aos reis. Os israelitas eram tributados pela Pérsia no produto da terra que Deus lhes havia concedido.

 

9.38 — O cântico finda em ação, e não apenas em sentimento. Sua intenção foi a mudança comportamental do povo do Senhor, um sinal para que os israelitas refletissem na fidelidade de Deus. O novo concerto comunitário desejava demonstrar a lealdade de Abraão e Sara.

 


 

10.1 — A assinatura de um documento no mundo antigo era feita de forma parecida com o método adotado em tempos mais recentes, nos quais se usava um selo de cera. Um selo especial era pressionado sobre argila macia, e o modelo dele mostrava que autoridade havia emitido tal registro.

 

10.2-8 — Os sacerdotes que selaram o acordo estão aqui relacionados. Alguns desses nomes aparecem em uma lista posterior como chefes dos sacerdotes (12.11-20). Vinte e um sacerdotes, chefes das famílias, assinaram o acordo em nome das casas e famílias de suas respectivas classes. O nome de Esdras não aparece, indicando que, talvez, ele não fosse o líder de uma família.

 

10.9-13 — Os levitas também assinaram o concerto. Alguns desses nomes aparecem posteriormente como chefes das ordens dos levitas (12.8).

 

10.14-27 — Quarenta e quatro chefes do povo também assinaram o concerto. Ao contrário dos líderes religiosos, estes eram os líderes políticos da comunidade judaica (compare com 7.4-63; Esdras 2).

 

10.28 — Não apenas os líderes, mas os leigos também assinaram o concerto. Os netineus eram os servidores do templo que realizavam o trabalho doméstico no santuário (Ed 2.43). Todos os que se tinham separado dos povos das terras eram os descendentes dos israelitas que haviam sido deixados na terra e juntaram-se aos remanescentes que regressaram. Homens, mulheres e crianças de idade suficiente fizeram a assinatura do concerto.

 

10.29 — Convieram num. A frase indica as penalidades pelo fracasso em cumprir o concerto. O povo fez um juramento para viver pela Lei de Deus, a qual era uma dádiva divina, dada pelo ministério de Moisés. Os israelitas juraram que observariam a Lei de Deus. Mandamentos, juízos e estatutos. Essa é uma maneira de falar da Lei de Deus como um todo (Ne 1.7).

 

10.30 — A decisão dos israelitas de obedecer à Palavra de Deus em todas as áreas de sua vida (v.29) não foi apenas uma declaração geral. O povo prometeu obedecer à Lei de Deus especificamente em suas relações matrimoniais. O casamento com não judeus era claramente proibido nas Escrituras (Êx 34.12-16; Dt 7.3; Js 23.12; Jz 3.6).

 

Não daríamos as nossas filhas aos povos da terra, nem tomaríamos as filhas deles para os nossos filhos. Os pais de Israel decidiram proibir seus descendentes de casarem-se com não judeus. No mundo antigo, os casamentos eram, geralmente, arranjados pelos pais.

 

10.31 — Outras áreas da vida foram incluídas na dedicação do povo à Lei de Deus. Este versículo trata da observância do Sábado, e três detalhes em relação a esse dia da semana são mencionados: em primeiro lugar, o povo prometeu parar de comprar dos estrangeiros e de vender para eles no Sábado; em segundo, ele se comprometeu a observar o Ano Sabático, ou seja, a deixar seus campos sem cultivo a cada sete anos (Lv 25.1-7); por último, decidiu não cobrar dívidas durante o Ano Sabático (Dt 15.1-6). O povo estava dedicando-se a guardar a Palavra do Senhor em sua vida profissional.

 

10.32-39 — O restante do capítulo trata da promessa do povo de obedecer à Palavra de Deus em relação ao templo. Nessa área, o povo fez quatro promessas: (1) pagar uma taxa ao templo a fim de cobrir as despesas das cerimónias de adoração no santuário de Deus — o versículo 33 lista os itens que a taxa supriria; (2) fornecer a oferta da lenha. A Lei determinava que a lenha queimasse constantemente no altar (Lv 6.12,13), e Neemias fez com que essa fosse uma obrigação da congregação; (3) oferecer ao Senhor os primeiros frutos no templo, como reconhecimento de Seustótus como o Dono da terra (Ex 23.19; 34.26; Dt 26.2). O povo prometeu os primeiros frutos de todas as árvores, o que significa que ele estava indo além das exigências da Lei. Ademais, o primogênito dos animais também pertencia ao Senhor (Nm 18.15, 17-19); e (4) remunerar os sacerdotes.

 


11.1-3 — Neemias lançou sortes para repovoar Jerusalém. Não se sabe ao certo a natureza desse ato na Bíblia, porém a sugestão mais comum é que se marcavam pedras e as colocavam em um vaso ou uma, no colo ou embrulhadas em uma peça de roupa. Então, sacudiam-nas e retiravam dentre elas uma pedra. Há vários registros nas Escrituras relacionados a lançar sortes: (1) para determinar qual bode deveria ser sacrificado no Dia do Perdão (Lv 16.7-19); (2) para dividir a terra entre as tribos (Nm 26.55); (3) para decretar quem havia cometido um crime (Js 7.14-18; Jn 1.7); (4) para decidir quem deveria ir para a guerra (Jz 20.9); (5) para determinar quem deveria ser o primeiro rei de Israel (1 Sm 10.20,21); (6) quem havia ofendido a Deus (1 Sm 14-41,42); (7) quem serviria no templo (1 Cr 24.5); (8) quem deveria queimar a lenha (Ne 10.34); (9) quem deveria substituir Judas (At 1.26). Nessa passagem de Neemias, sortes foram lançadas para determinar a vontade de Deus. Salomão escreveu: A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda a sua disposição (Pv 16.33). Um de dez- Esta era a proporção exigida para levar a população de Jerusalém ao nível considerado necessário para sua força e viabilidade.

11.4-11 — Quatrocentos e sessenta e oito homens da tribo de Judá viviam em Jerusalém; novecentos e vinte e oito homens da tribo de Benjamim também viviam lá. De acordo com 1 Crônicas 9.3, descendentes de Efraim e Manassés também fizeram morada em Jerusalém.

11.12,13 — A obra da casa refere-se ao trabalho da casa de Deus, especificamente em relação aos sacrifícios do templo.

11.14,15 — Varões valentes eram os homens que guardavam a cidade de Jerusalém.

11.16-18 — A obra de fora da Casa de Deus tratava-se da manutenção do templo, incluindo reparos.

11.19 — Os porteiros também eram defensores da cidade.

11.20-22 — O superintendente dos levitas era Uzi, um importante administrador do templo.

11.23,24 — À mão do rei (ou à disposição do rei) : esse homem era o representante do povo. Ele podia receber petições e reclamações do rei e enviá-las para o monarca.

11.25-36 — Esses versículos registram os residentes de fora de Jerusalém, ou seja, as tribos de Judá (v. 25-30) e Benjamim (v. 31-36). O povo de Judá vivia em 17 cidades e vilas próximas. Os descendentes de Benjamim ocupavam 15 áreas.

 11.25 — Quiriate-Arba é outro nome para Hebrom

 


 

12.1-8 — O retorno de Zorobabel é registrado em Esdras 1—6. Jesua é o sacerdote Josué. Esdras: esse não é o sacerdote que escreveu o livro homónimo (Ed 7.1).

 

12.9 — Estavam defronte dele nas guardas: o louvor era conduzido com dois coros de pé, de frente um para o outro.

 

12.10,11 — A listagem dos descendentes de Eliasibe até Jadua pode indicar que alguém que viveu após Esdras e Neemias tenha adicionado alguns desses nomes.

 

12.12-21 — Nos versículos 1-7, são relacionados os nomes de 22 sacerdotes. Aqui, apenas 20 nomes estão registrados. Hatus (v.2) e Maadias (v.5) não são mencionados nessa listagem.

 

12.22 — Dario: Dario II (Nótus), que reinou sobre a Pérsia de 423 a 405 a.C.

 

12.23-26 — O livro das crónicas não é o livro bíblico, mas um registro oficial dos chefes das casas dos pais.

 

12.27-29 — Após o término do muro de Je rusalém (cap. 6) ocorreu um avivamento no meio do povo (cap. 8 — 10). Depois desse acontecimento, Neemias tomou providências para repovoar a cidade (7-4,5; 11.1,2). Estes dois fatores explicam por que a dedicação dos muros foi adiada. A palavra dedicação (hb. hanukkâ) é transliterada em português como hanucá ou chanucá. A Festa de Hanucá foi comemorada a partir da experiência do povo judeu ao dedicar mais uma vez o templo depois de sua profanação pelos sírios e a subsequente revolta dos macabeus no segundo século antes de Cristo. O povo celebrou com alegria, em referência não apenas à festa em si, mas também à adoração a Deus.

 

O termo louvor, comumente encontrado no livro dos Salmos (SI 147.7), significa reconhecimento público, declaração em voz alta, em público. Essa palavra — junto com canto, saltérios, alaúdes e harpas — sugere o uso de salmos em arranjos musicais com palavras de louvor e acompanhamento instrumental.

 

12.30-35 — O método de purificação não é determinado, mas a ordem, sim: os sacerdotes e os levitas, seguidos pelo povo, e as portas, e o muro. Aqueles que manuseavam os vasos do Senhor tinham de ser purificados primeiro.

 

12.36-42 — A associação do nome de Davi com instrumentos músicos foi uma referência ao glorioso passado de Israel.

 

12.43 — Os sacrifícios oferecidos na dedicação do muro talvez não fossem holocaustos, mas ofertas de paz, quando o povo compartilhava uma refeição comum. A dedicação foi uma ocasião de grande regozijo, da qual todos, incluindo as esposas e os filhos, participaram.

 

12.44-47 — Após a dedicação do muro, o povo tomou as providências para remunerar os sacerdotes, os levitas, os cantores e os porteiros que serviam no templo. A alegria do Senhor deveria produzir serviço para Deus. Nesse caso, o contentamento que o povo sentiu reverteu-se em provisões para o templo. Homens foram indicados como guardiões das primícias e dos dízimos. Nos dias de Davi e de A safe. A época da maravilhosa música de Israel nunca foi esquecida; ela servia de modelo para os dias vindouros.


Neemias 13

13.1-31 — Esse capítulo traz uma espécie de final surpreendente para o livro. A fim de entendê-lo, deve-se saber que, entre os capítulos 12 e 13, Neemias retornou para a Pérsia. À primeira vista, a frase naquele dia (v.l) pode parecer que faz referência ao dia da dedicação descrito há pouco. Mas os versículos 6 e 7 tornam isso impossível, assim como o versículo 10, o qual declara que, naquele dia do capítulo 13, os levitas não estavam recebendo suas porções, apesar de que as tinham recebido na época da dedicação (Ne 12.47). Então, Neemias retomou para a Pérsia entre os capítulos 12 e 13 e, naquele dia após o seu regresso, descobriu o que passou a ser o final surpreendente desse livro: aquele povo devoto e dedicado tinha tropeçado em tentação, caído em pecado, e permanecia em desobediência. Esse capítulo lida com cinco problemas: estrangeiros (v. 1-3); o templo (v. 4-9); os levitas (v. 10-14); o Sábado (v. 15-22) e o casamento (v. 23-31). Mais especificamente, registra a separação dos estrangeiros, a purificação do templo, a restauração dos levitas, a aplicação do Sábado e a condenação dos casamentos mistos.

13.1-3 — A primeira área de apostasia para o povo foi o seu relacionamento com estrangeiros. Embora o cap. 9.2 declare que a geração de Israel se apartou de todos os estranhos, o povo, mais uma vez, permitiu estrangeiros em sua congregação. Relacionamentos entre o povo judeu e os não judeus na terra fizeram com que os israelitas violassem o mandamento divino (1 Co 15.33).

13.4-9 — A segunda maior área de apostasia nesse capítulo (v.1-3) foi o fato de o sumo sacerdote ter permitido que um inimigo do Senhor vivesse na Casa de Deus. Eliasibe era o sumo sacerdote (v. 4,28). Tobias foi um dos homens que tentou interromper a construção do muro (Ne 2.10,19; 4.3; 6.1-12,17,19). Eliasibe permitiu que Tobias se instalasse na câmara grande do templo que havia sido usada para armazenar grãos e outros produtos. N a verdade, Tobias havia recebido acesso a vários cômodos do templo.

13.6,7 — Neemias retorna para Jerusalém.

 13.8,9 — Quando Neemias retornou para Jerusalém, imediatamente iniciou as reformas. Ele removeu a mobília de Tobias da câmara e ordenou que ela fosse purificada. Após sua lavagem, limpeza e aspersão com sangue, a câmara foi mais uma vez ocupada com grãos e outros itens que haviam estado lá anteriormente.

13.10,11 — O termo contender é muito usado pelos profetas para se dirigirem a Deus e apresentarem a Ele um caso legal contra Seu povo errante (Jr 2.9). Neemias estava agindo como um profeta, levando ao Senhor um caso legal contra um apóstata; ele contendeu por aquilo que era certo. Observe a pergunta que ele fez: Por que se desamparou a Casa de Deus?

13.12,13 — Então, todo o Judá trouxe os dízimos. As dádivas que deveriam ter sido entregues antes finalmente foram sendo levadas pelo povo. Tesoureiros. Neemias escolheu homens fiéis para esta função (Ne 7.2; 1 Co 4.2; 2 Tm 2.2), para ter certeza de que a distribuição seria feita de forma justa.

13.14 — Normalmente, a oração é oferecida ao Senhor antes ou durante um acontecimento. Nesse caso, a oração de Neemias seguiu suas beneficências. Neemias estava dizendo: “o que eu fiz, fiz de acordo com a Tua vontade; agora, preserva-me e protege-me”.

13.15-22 — Outra dificuldade que Neemias enfrentou diz respeito ao Sábado. Nesse dia da semana, o povo judeu em Judá estava trabalhando; as pessoas estavam comprando e vendendo mantimentos em Jerusalém. Tírios levavam peixe e outras mercadorias para serem vendidas tanto em Judá quanto em Jerusalém. Essas eram violações ao que declara Exodo 20.8-11 e ao juramento do próprio povo (Ne 10.31), que havia colocado suas transações comerciais à frente da obediência ao mandamento divino, segundo o qual aquele deveria ser dia de descanso.

13.19-22 — Neemias mandou que as portas fossem fechadas de sexta à noite até sábado à noite, colocando até mesmo seus próprios servos como guardas. Quando os negociantes e os vendedores ficaram do lado de fora do muro, Neemias avisou-lhes que, se ficassem por ali novamente no Sábado, ele mesmo iria atacá-los. Temerosos pela ameaça do exército de um só homem, os negociantes partiram.

13.23,24 — O problema de os judeus se casarem com estrangeiros tinha sido tratado 30 anos antes, por Esdras (Ed 9.1-4). O povo, então, tinha feito um concerto, jurando que nunca mais faria isso (Ne 10.30). Nesse caso, Neemias encontrou filhos resultantes dos casamentos mistos, os quais não sabiam falar hebraico, a língua das Escrituras. Sem o conhecimento do hebraico, essas crianças não podiam aprender a Lei em casa, nem adorar o Senhor no santo templo. Os judeus estavam criando descendentes que não conheciam o Deus vivo nem o adoravam.

13.25-27 — O ataque de Neemias aos judeus que se casaram com não judeus foi confrontador, direto e, até mesmo, brutal. Contendi com eles, e os amaldiçoei, e espanquei alguns deles, e lhes arranquei os cabelos. É inquietante ler essa lista de verbos e imaginar a cena. Essas não foram as observações imparciais de alguém apresentando um seminário. Neemias usou tudo o que podia, inclusive suas mãos, para forçar a obediência à Lei.

E os fiz jurar. Neemias os forçou a cumprir a vontade do Altíssimo nesse assunto; afinal, esse foi, no princípio, o principal motivo que levou Israel ao cativeiro. Neemias não podia, simplesmente, permitir que um desastre assim voltasse a acontecer.

Salomão. Até mesmo esse rei, apesar de sua grandeza e do amor de Deus por ele, cometeu pecado em grande medida nesse aspecto (1 Rs 11.4-8). Como, então, com as grandes lições do passado tão claras diante deles, os israelitas podiam repetir essas transgressões?

13.28,29 — Pelo que o afugentei de mim. Essa ação foi contra o mais proeminente ofensor, o neto do sumo sacerdote Eliasibe. Este jovem tinha casado com a filha de Sambalate (Ne 2.10), o governador de Samaria e o arqui-inimigo do povo judeu. O matrimônio foi particularmente ofensivo porque formava uma aliança traiçoeira com os adversários de Israel e comprometia a pureza do sumo sacerdócio (cap. 12). Por causa da seriedade dessa ofensa, Neemias agiu de forma dramática: ele expulsou o jovem da comunidade, orando para que Deus se lembrasse dos que tinham desonrado o sacerdócio.

13.30,31 — Assim, os alimpei de todos os estranhos. O testemunho de Neemias foi fazer tudo o que sabia para promover a justiça no sacerdócio e entre os levitas, incluindo as suas ofertas e o seu serviço. As últimas palavras de Neemias registradas (5.19) — lembra-te de mim para o bem — poderiam servir como as últimas palavras de qualquer pessoa de fé.

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